quatro anos. Ele nos conta de um momento em que viu um homem dizer “Odeio esses canalhas!”, palavras que o fizeram cair em uma “espécie de torpor” e diz: “me abandonei ao fio das minhas recordações. Durante meus quatro anos de trabalhos forçados, lembrava-me incessantemente de dias passados e acredito ter vivido minha vida uma segunda vez por essas recordações. Elas nasciam de si mesmas; raramente as evoquei com propósito deliberado.” Assim, ele nos conta de uma experiência ruim que, no entanto, o fez lembrar e, com isso, reviver lembranças boas de sua infância. Lembranças essas que o salvaram daquele ambiente hostil: certas coisas que esquecemos, voltam à nossa memória em algum momento e ganham um peso enorme, são lembranças que voltam com uma intensidade muito maior do que tinham no momento do acontecimento. Proust diz que quando essa memória volta, ela volta como se fosse uma outra vida, com outro significado.

As pessoas ressentidas, como Bentinho de Dom Casmurro, por exemplo, não conseguem ressignificar suas lembranças.

Essas lembranças boas podem salvar toda uma existência. Dostoiévski, neste conto, narra como uma lembrança boa fez com que ele reencontrasse o sorriso dentro da prisão. Aquela memória fez com que ele sobrevivesse ao pânico que estava sentindo. Essa memória vem ao seu auxílio.

Ele nos conta de um dia em que brincava na floresta quando ouviu “Ao lobo!” e ficou muito assustado. Saiu correndo em direção ao Mujique Marei que trabalhava por perto. Em um primeiro momento, o mujique diz ao menino que não há nenhum lobo (“Vamos, vamos, não há lobo, tu sonhaste; que viria fazer um lobo por aqui?”). Porém, pouco tempo depois, o mujique entra no mundo do garoto e diz “Vamos, vai, eu te seguirei com os olhos. Não deixarei que o lobo te apanhe!” O que fez com que o menino sentisse a coragem para ir embora, foi a empatia: o mujique viveu o medo dele e o protegeu ao mesmo tempo. Assim, tomou para si a responsabilidade, o compromisso de protegê-lo. Ao mesmo tempo, faz o sinal da cruz. Dessa forma, vemos a união do humano e do divino.

Após lembrar desse acontecimento da sua infância enquanto vivia na prisão um momento tão horrendo, Dostoiévski diz: “Tudo isso me voltou de uma só vez à memória, não sei por que, mas com uma rara precisão de pormenores. Reabri subitamente os olhos e me assentei sobre a baia. Reencontrei então, nos meus lábios, eu me lembro, o sereno sorriso que estas lembranças tinham aí feito nascer.” (p. 183)

Dostoiévski lembra-se deste acontecimento que chama de “aventura” em que encontrou alguém que cuidou do medo dele, esse encontro com o outro que revestia-se para ele de “um sentido particular”. Neste encontro, ele conheceu um homem que lhe mostrou o amor mais puro e verdadeiro, desinteressado. Esse mujique representa aqueles homens bons que o são assim sem explicação (“Alguns são assim.”) São homens bons, que possuem “profundo e radioso sentimento humano”, “ternura quase feminina”.

Existem diferentes tipos de medo e diferentes formas de lidar com eles. O medo precisa ser compartilhado com alguém e não trancafiados no próprio indivíduo. Esses medos compartilhados transformam-se em uma boa lembrança, em uma boa aventura. É preciso que alguém viva com a gente nossos medos e não nos deixem sozinhos com eles.

Dostoiévski fala que por muito tempo não se lembrou desse acontecimento: “Era preciso, pois, que ele tivesse ficado gravado na minha alma, de maneira muito imperceptível, por si mesmo, e sem o concurso da minha vontade, para que a lembrança voltasse na hora em que dela necessitava.” Freud diz que tudo aquilo que vivemos e que muito nos tocou, fica gravado na nossa alma e vem à tona quando necessário.

Dostoiévski através dessa história do Mujique Marei está nos dizendo que as pessoas que dizem que odeiam, fazem isso porque nunca encontraram alguém bom de quem se lembrar. Ele diz que após reviver a lembrança do mujique Marei – que o mostrou o amor mais puro, viveu e o protegeu de seu medo -, “de repente, como que por encanto, todo o ódio e toda a cólera acabavam de desaparecer de meu coração.” Depois disso, mudou sua visão sobre todos aqueles presos. Agora sabia que eles eram desgraçados porque não tinham uma lembrança de um amor verdadeiro como o que o camponês Marei o havia feito conhecer.

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