“Sequência”

O conto narra a história de uma vaquinha que abandona a propriedade onde está, para retornar para a sua antiga morada, antes de ser vendida para o fazendeiro seu Rigério. É uma vaca “vermelha, a cor grossa e afundada – o tom intenso de azamar” e está decidida a retornar a seu local de origem: “nem hesitava nas escruzilhadas”. Com saudade de seu lar – “Apressava-se nela o empolgo de saudade que adoece o boi sertanejo em terra estranha, cada outubro, no prever os trovões” – a vaquinha está determinada, e tem querência: “Seguia, certa; por amor, não por acaso”.  Ninguém se interessa pela vaca exceto um dos filhos de seu Rigério, que vê nela algo diferente (“É uma vaquinha pitanga?”) e resolve ir atrás dela para buscá-la, em um ímpeto “desconhecido”.

A princípio, o rapaz, sentindo-se “vocado e ordenado”, perde a vaquinha de vista, mas mesmo assim segue seus rastros com seu cavalo, em uma “involuntária aventura”, dando “patas à fantasia”.  Após certo tempo, ele “desanimadamente” reflete sobre o que está fazendo, para onde está sendo conduzido (“Aonde um animal o levava?”) e, nesse momento, lança um olhar ao longe e avista a vaca novamente: “Do ponto, descortinou que: aquela. A vaquinha, respoeirando. Aí e lá, tomou-a em vista em sua visão.” A vaca adianta-se no caminho novamente, e pouco antes de chegar à propriedade, se depara com um obstáculo: “O rio, liso e brilhante, de movimentos invisíveis. Como cortando o mundo em dois, no caminho se atravessava – sem som” e então “quase que mal os dois chifres nadando – a vaca vermelha o transpondo, a esse rio, de tardinha.” Quando o jovem chega à margem do rio, a princípio hesita em atravessá-lo, mas é tomado por uma “oculta, súbita saudade”, e, “passo extremo!”, descalçou as botas e  “entrou – de peito feito. Àquelas quilas águas trans – às braças. Era um rio e seu além. Estava, já, do outro lado.

Chegando à fazenda da vaquinha, o rapaz se depara com as quatro filhas do major e se apaixona pela segunda filha.

Era alta, alva, amável. Ela se desescondia dele. Inesperavam-se? O moço compreendeu-se. Aquilo mudava o acontecido. Da vaca, ele a ela diria: – “É sua.” Suas duas almas se transformavam? E tudo à sazão do ser. No mundo nem há parvoíces: o mel do maravilhoso, vindo a tais horas de estórias, o anel dos maravilhados. Amavam-se.

Se no começo a vaquinha conduzia o moço, agora a família acredita que foi ele quem conduziu a vaquinha até lá. O jovem segue uma determinação que não entende bem, chega até mesmo a questionar porque incansavelmente corre atrás da vaquinha que, em sua decisão de retornar à Fazenda Pãodolhão, não cede aos obstáculos, e continua seguindo-a. Num determinado momento, a vaquinha invade as terras do Major Quitério, o rapaz acompanha o animal, ultrapassam porteiras, currais, avistam luzes na casa do dono das terras. Inexplicavelmente o moço entra casa adentro, sobe uma escada e depara-se com as quatro filhas do Major. Encanta-se com uma delas, fixa o olhar na bela moça e é tomado por um sentimento de extraordinária felicidade: encontrara o verdadeiro amor.

Guimarães Rosa trata os bichos, em especial cavalos e vacas, como seres maravilhosos. Em seus contos eles ganham status de personagens e a vaca, com sua imagem de servidão paciente e de força pacífica, tem poder decisivo em suas narrativas. Com isto, tira das mãos do homem as decisões sobre seu próprio destino: é assim com a vaca do conto Seqüência que, de objeto passivo de busca, passa a condutora do destino do vaqueiro, numa inversão irônica que é a chave de compreensão do conto. A busca empreendida se vincula à idéia da viagem que traz em si determinações que pertencem tanto ao tempo quanto ao espaço. Assim é a peregrinação do vaqueiro em Seqüência. [1]

“Nada e nossa condição”

Em “Nada e a nossa condição”, um narrador conta a “estória de seu Tio Man’antônio, já morto e transformado em figura lendária. Homem estabelecido, dono de imensa fazenda, pai de três filhas, surpreende-o um dia a morte de sua mulher, Liduína. A guinada do destino marca o ponto de virada em sua vida: o fazendeiro introspectivo, que sempre tivera o hábito de fazer longas cavalgadas meditando sobre cimos e abismos, passa a atentar também para horizontes mais próximos. Decide reformar sua propriedade, transformando grande parte do terreno em pasto, o que logo o faz obter muito lucro. Posteriormente, casa as filhas, que vão para longe com os maridos. Man’antônio então completa seu “projeto”: manda dinheiro para elas como se vendesse as terras, mas, na realidade, distribui-as entre seus empregados.”[2] O fazendeiro, entretanto, continuou administrando o trabalho de seus “ex-servos”, que, sem entender as atitudes do patrão, “milenar e animalmente, o odiavam.” Tempos depois, morre e assim que termina o velório, a casa incendeia-se com ele dentro, e os empregados ajoelham-se e prostram-se no chão, “pedindo algo e nada, precisados de paz.”

            A partir deste conto e também do conto “Sequência”, discutimos o processo de construção do “eu”, e também refletimos sobre o tema do saber dar e receber.  O conto retrata um protagonista que, em nome de uma justiça maior, em busca de uma integração com o coletivo, realiza um projeto de mudança social envolvendo a questão da posse de terra.  Seu plano, porém, não é bem interpretado por seus empregados, e desperta neles um ódio pelo patrão.

O conto é narrado pelo sobrinho de Man’antônio, que em diversos momentos revela resquícios da escravidão que um dia existiu ali, referindo-se aos empregados como “servos” e descrevendo o sino da fazenda de “outrora comandar os escravos assenzalados.” Porém, até o momento em que Tio Man’antônio decide doar suas terras aos trabalhadores, a relação patrão-empregado é descrita de maneira cordial: enquanto o patrão “guiava-os, muito cometido, pelos sabidos melhores meios e fins, engenheiro e fazedor, varão de tantas partes; associava com eles, dava coragem”, seus empregados não sentiam uma relação de “sujeição e senhoria” e “estimavam-no, decerto, queriam-lhe como quem.” Essa boa relação, de comum acordo, será interrompida quando Man’antônio decide doar suas terras, mas continua orientando seus empregados, que não compreendem as intenções do ex-patrão e passam a ter ódio dele.

Com a morte de Liduína, uma das filhas de Man’antônio pergunta: “Pai, a vida é feita só de traiçoeiros altos-e-baixos? Não haverá, para a gente, algum tempo de felicidade, de verdadeira segurança?” Ao que ele responde: “Faz de conta, minha filha… Faz de conta…” Para a filha, a segurança estaria na não-mudança, na permanência; mas na realidade a “verdadeira segurança” está em saber que a vida é uma constante transição, em aceitar as mudanças, os fluxos da vida. Para Man’antônio, Liduína se transforma em “fina música e imagem”, sua presença se eterniza. O marido compreende o caráter de transitoriedade da vida, e continua vendo e ouvindo sua esposa.

Após a morte de sua esposa, Tio Man’antônio decide cortar algumas árvores e arbustos e transformar suas terras em pasto, e uma de suas filhas questiona se aquilo não seria “pecar contra a saudade.” Ao contrário do pai, as filhas ainda não tinham elaborado a morte da mãe, estavam ligadas no concreto, e não compreendiam os planos do pai. “Já por detrás de si mesmo, Tio Man’antônio sabe que os altos-e-baixos da vida, que os cimos e grotas abismáticas não são, na verdade, reais: são um faz-de-conta, uma das ‘estórias de fadas’, que esconde uma verdade, são uma bela mentira que encobre uma ‘verdade escondida’– Deus verdejando e florescendo no cimo do espírito”. [3]

Tio Man’antônio tinha um “plano surdo”: soube lidar com a separação, elaborou o luto de sua esposa, criou novos projetos e fez mudanças, mas não tinha com quem compartilhá-las. O “faz de conta” que ele diz é o acesso a essa outra dimensão, do simbólico. As filhas não estavam preparadas para entender o plano do pai: ele está no transitório, e elas estão no permanente. “Descobrir-se mortal, passageiro, é o que o faz querer quebrar, com justiça, padrões profundamente desumanos que se tornaram habituais.”[4] Man’antônio está se preparando para um novo ciclo, para expandir seu amor individual ao coletivo, amor ampliado. As filhas, sem entender o comportamento do pai, faziam perguntas que ele se limitava a responder de forma vaga: “faz de conta…”, “nem tanto….”. Muitas vezes, temos que viver a pergunta, e não receber uma resposta pronta – um dia a resposta irá aparecer a partir da trajetória que é própria de cada um. Elas ainda não conseguiam entender que existe uma presença que vem na ausência, e descobririam mais tarde por si mesmas. Man’antônio dá uma festa em que as filhas conhecem seus futuros maridos. Ele soube o momento apropriado para dar a festa: as filhas estão crescidas e prontas para o amor.

Em certo momento, o fazendeiro ouve um chamado do mundo:

“Sozinho, sim não triste. Tio Man’antônio respeitava, no tangimento, a movida e muda matéria; mesmo em seu mais costumeiro gesto – que era o de como se largasse tudo de suas mãos, qualquer objeto. Distraído, porém, acarinhando-as, redimia-as, de outro modo, às coisas comezinhas? Vez, vez, entanto, e quando mais em forças de contente bem-estar se sentindo, então, dispostamente ele se levantava, submetia-se, sem sabida precisão, a algum rude, duro trabalho – chuva, sol, ação. Parecia-lhe como se o mundo-no-mundo lhe estivesse ordenando ou implorando, necessitado, um pouco dele mesmo, a seminar-se? Ou – a si – ia buscar-se, no futuro, nas asas da montanha. Fazia de conta; e confiava, nas calmas e nos ventos.”

Refletimos sobre a trajetória do tio Man’antônio: ele já havia casado as filhas e agora estava pronto para seguir seu caminho – quer deixar algo no mundo, e agora é o mundo que está falando com ele e ele está ouvindo. Nesse doar-se para o mundo, ele se encontra, faz a jornada do individual, da família, para o coletivo. Deleuze diz “que está em nós a potência da vida inorgânica que opera, que somos atravessados por uma atualização do Uno-todo. Na realidade somos nós que somos escolhidos. O fora como instância da força ativa, apoderando-se de um corpo, selecionando um indivíduo, o ordena. [5] Nesse momento o mundo o escolhe, pede para que faça algo, se integre. É uma “busca dessa outra identidade, dada pelo limite da morte, diante do qual toda posse é nada.”[6] Percebemos que essa necessidade de fazer algo para o mundo, para assim atingir a dimensão do coletivo, não aparece como fardo: para ele, aquele chamado fez todo sentido. Ainda segundo Ana Paula Pacheco, essa fazenda seria um “espaço rural de uma propriedade que quer se misturar a fronteiras simbólicas de uma Natureza com leis universais, às quais todos deveriam estar atentos.”

Quando tio Man’antônio doa suas terras aos empregados, a relação entre eles se desequilibra. Havia uma relação estável, uma estrutura que agora se desestabiliza. Ao receber as terras, os empregados, assustados, “se abençoavam”, pois não estavam entendendo a atitude do patrão. Esses homens faziam parte de um plano, eram “parte exigida”, mas não haviam compreendido a situação, e acabam ficando com ódio do patrão. No momento em que o novo acontece, é preciso saber decifrar a mudança. Refletimos sobre a desconfiança do receber: muitas pessoas não conseguem entender que certas coisas vêm de graça, sem que tenham que dar nada em troca. Pensam que tem algo escondido por detrás daquela ação, um interesse pessoal; não vêem como um ato genuíno, o dar de coração.

“De seu, nada conservava, a não ser a antiga, forme e enorme casa, naquela eminência arejada, edifício de prospecto decoroso e espaçoso: e de onde o tamanho do mundo se fazia maior, transclaro, sempre com um fundo de engano, em seus ocultos fundamentos. Nada. Talvez não. Fazia de conta nada ter; fazia-se, a si mesmo, de conta. Aos outros – amasse-os – não os compreendesse.

Faziam de conta que eram donos, esses outros, se acostumavam. Não compreendiam. Não o amavam, seguramente, já que sempre teriam de temer sua oculta pessoa e respeitar seu valimento, ele em paço acastelado, sempre majestade. Por que, então não se ia embora então, de toda vez, o caduco maluco estafermo, espantalho? Sábio, sedentariado, queria que progredissem e não se perdessem, vigiava-os, de graça ainda administrava-os, deles gestor, capataz, rendeiro. Serviam-no, ainda e mesmo assim. Mas, decerto, milenar e animalmente, o odiavam.”

O sonho sublime de doar as terras para quem cuidava delas esbarra na rigidez dos papéis sociais. Havia naquela fazenda um “fundo de engano”, “ocultos fundamentos”, ela carregava resquícios da escravidão: “pendia ainda a corda do sino de outrora comandar os escravos assenzalados.” Esta herança oculta, a escravidão dos antepassados, vem à tona no momento em que os empregados recebem as terras: quando ocorre a mudança, eles não a compreendem, desconfiam daquela generosidade, e voltam a um tempo anterior, do ódio milenar para com o patrão. Havia uma falta de compreensão entre ambas as partes: tio Man’antônio “amasse-os – não os compreendesse”, e os empregados também “não compreendiam”.

Quando tio Man’antônio morre, os empregados ficam com medo do ódio que sentiam pelo patrão, acham que depois de morto ele pode castigá-los:

Ai-de, ao horror de tanto, atontoavam-se e calaram-se, todos, no amedronto de que um homem desses, serafim, no leixamento pudesse finar-se; e temessem, com sagrado espanto e quase de não de seu ciente ódio, que, por via de tal falecer, enormidade de males e absurdos castigos vingassem a se desencadear, recairiam desabados sobre eles e seus filhos.”

Percebemos que o funeral do tio Man’antônio não é, para os empregados, um ritual de passagem sincero: estão fazendo a cerimônia por medo, temor dessa morte recair sobre eles. No fim do ritual, os empregados se jogam no chão, pedindo paz.

“Ante e parente, à distância, em roda, mulheres se ajoelhavam, e homens que pulando gritavam, sebestos, diabruros, aos miasmas, indivíduos. De cara no chão se prostravam, pedindo algo e nada, precisados de paz.”

No conto Sequência, um jovem segue uma vaquinha e ela o ajuda a fazer a travessia para o outro lado, onde uma moça estava lhe esperando. O rapaz estava de mente e coração abertos, livres para a experiência do novo, da vida. Tio Man’antônio fez a travessia completa, viveu o amor e deixou algo de si para o mundo, mas não conseguiu despertar o amor naqueles que estavam em volta dele. Havia uma herança oculta, da escravidão, que permeava as relações entre os personagens. Se “Sequência” termina com a vaquinha tendo conduzido o jovem para fazer a travessia e encontrar o amor, “Nada e a nossa condição” termina os empregados prostrados no chão, precisados de paz.

 


[1]Baseado em  http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/livros/resumos_comentarios/s/sequencia_conto

[2] “O lugar do mito”, de Ana Paula Pacheco. p. 195

[3] “O Espelho”, de Heloísa Vilhena de Araújo. p. 130

[4] “O lugar do mito”, de Ana Paula Pacheco. p. 200

[5] “Deleuze, o clamor do ser”, de Alain Bardout. p. 20

[6] “O lugar do mito”, de Ana Paula Pacheco. p. 208

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