Ao lermos o conto Negócio de menino com menina refletimos sobre um tema muito importante para nós: a diferença entre aquilo que pode ser comprado daquilo que só pode ser ganho, pois não tem preço, não é mercadoria.

O conto trata do encontro que se dá numa estrada de fazenda entre um menino de 10 anos que tem em suas mãos um passarinho numa gaiola e uma menina da cidade que estava no carro com seu pai. Ela achou o passarinho tão lindo que a todo custo queria que seu pai o comprasse.

No entanto, pela primeira vez em sua vida ela se deparou com uma pessoa, o dono do passarinho, que não o queria vender. “A menina não considerara ou não aprendera ainda, que negócio se faz quando existe um vendedor e um comprador, no caso, faltava o vendedor. Mas o pai era um homem de negócios, águia da bolsa, acostumado a encorajar os mais hesitantes ou a virar a cabeça dos mais recalcitrantes.”

Por isso tentou inúmeras vezes convencer o menino, oferecendo muito dinheiro, como o qual ele poderia compra sacos de feijão e até uma bicicleta.

O menino resistiu e o pai vendo que não conseguiria o que queria, enquanto o menino continuava firme em sua vontade, o pai tentou impressioná-lo dizendo:

“- Vende isso logo, menino. Não está vendo que é para a menina!”.

Ao que o menino respondeu que “precisava ter o passarinho mais um pouquinho consigo.”

Percebemos que esse menino de 10 anos, pés no chão, já tinha uma sabedoria. Conhecia a necessidade de guardar consigo aquilo que tinha descoberto antes de poder compartilhar com as demais pessoas.

Depois desse tempo de guardar com ele, esta experiência já faria parte dele mesmo e nunca o abandonaria. Só então ele poderia mostrar o passarinho e contar essa história para sua mãe. E agora ele quer dá-lo de presente para aquela menina, que queria tanto que seu pai o comprasse. Fazendo o que lhe havia prometido, quando lhe falou baixinho no ouvido: “- Amanhã eu dou ele para você”.

“Sempre me pareceu que as coisas são belas, valiosas, quando são presentes, não aquisições.”(em Lou Salomé, p. 16).

 

Na infância, a criança não tem uma clara noção do que é real e do que é fantasia. O que lhe permite esperar, maravilhada, os presentes que chegarão do Papai Noel.

Essa experiência é de suma importância para que a pessoa leve consigo a possibilidade de confiar e acreditar que poderá receber presentes da vida. E essa será parte importante de sua educação.

 

Podemos pensar que para a menina ganhar o pássaro, foi como algo vindo de fora que atingiu sua alma, o que a conectou com a dimensão da graça.

 

No conto Negócio de menino com menina percebemos o quanto o menino possuía uma intuição de que ele precisava ficar com sua descoberta mais um pouco só para si.

 

Esse conto nos mostra que esse encontro – entre o pai, a menina e o menino – se dá na vida, ensinando-nos e possibilitando o movimento das transformações. Podemos encontrar uma concepção semelhante em Os Irmãos Karamazov, de Dostoievski:

 

“Sabei que não há na vida nada mais nobre, mais forte, mais são nem mais útil que uma boa recordação, sobretudo quando essa recordação é da infância, da casa paterna. Falavam-vos muito da vossa educação; pois bem, uma recordação sagrada, conservada desde a infância, talvez seja a melhor das educações. Fazendo-se provisão de semelhantes recordações para toda a vida, fica-se definitivamente salvo. E, ainda que não guardemos no coração mais do que uma única boa recordação, esta poderá servir para salvar-nos algum dia. (…) Mais ainda, talvez essa recordação o impeça de proceder mal, e, fazendo um exame de consciência, diga: ‘Sim, eu era então bom, valente e honrado.’” (pp. 745-6)

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