Leia na íntegra o conto “Uma Carta do ano de 1920”, de Ivo Andric, presente no livro Café Titanic.

Uma Carta do ano de 1920

 

Março de 1920. Estação ferroviária de Slávonski Brod. Já passa da meia-noite. O vento sopra de um ponto indeterminado e, assim, para as pessoas insones e cansadas da viagem, parece muito mais gelado e forte do que é realmente. Nas alturas, as estrelas movem-se entre nuvens desfraldadas. À distância, luzes amarelas e rubras deslocam-se, mais velozes ou mais lentas, sobre trilhas invisíveis, juntamente com o trinado penetrante dos apitos dos condutores de trem ou com o silvo tenso das locomotivas, nos quais nós, passageiros, insuflamos a melancolia de nossos cansaço e aborrecimento de uma longa espera insatisfeita.

Diante da estação, ao lado do primeiro trilho, estamos sentados sobre as malas e aguardamos o trem, cujo horário de chegada ou de partida desconhecemos; a única coisa que sabemos é que ele estará lotado, atulhado de passageiros e bagagens.

O homem que está sentado ao meu lado é meu conhecido e amigo de longa data, a quem perdi de vista nos últimos cinco ou seis anos. Chama-se Maks Lewenfeld, médico, filho de médico. Nasceu e cresceu em Sáraievo. O pai, médico ainda jovem, deixou Viena e estabeleceu-se em Sáraievo, onde obteve grande experiência. São de origem judaica, mas convertidos há muito tempo. A mãe, nascida em Trieste, filha de uma baronesa italiana e de um oficial da Marinha austríaca, é descendente de emigrantes franceses.

Duas gerações de habitantes de Sáraievo lembram-se-lhe da estatura, do caminhar e de seu modo senhoril de vestir-se. Ela era uma daquelas beldades cuja beleza até as pessoas mais atrevidas e mais rudes contemplam com o respeito e a atenção que, de fato, nem sequer possuem.

Cursamos juntos o Ginásio de Sáraveio, mas ele estava três ano à minha frente, o que, naquela idade, significa muito.

Lembro-me vagamente de que o havia percebido assim que cheguei ao Ginásio. Naquela época, ele estava ingressando no quarto ano, mas vestia-se ainda como uma criança. Era um menino forte, o “Alemãozinho”, com a roupa de marinheiro azul-escura, com anzóis bordados sobre os cantos da gola larga de marinheiro. Ainda vestia calças curtas. Nos pés, calçava sapatos  pretos raros, de formato perfeito. Entre as meias brancas e curtas e as pernas das calças, pernas nuas fortes, avermelhadas pelo sangue, já salpicadas de penugens claras

Naquele tempo, não havia entre nós, nem poderia haver, contatos. Tudo nos dividia – a idade, o aspecto, os hábitos, a situação financeira e a posição social de nossos pais.

Lembro-me dele, porém, de maneira muito melhor dos tempos que sobreviriam, quando eu já cursava o quinto ano, e ele, o oitavo. Já era um rapaz espigado, de olhos claros, que traíam uma sensibilidade incomum e uma grande vivacidade de espírito; bem-vestido, mas de maneira negligente; cabelos loiros abundantes que lhe caíam em madeixas rebeldes, ora de um, ora de outro lado da face. Encontramo-nos e aproximamo-nos por ocasião de uma daquelas discussões que um grupo de nossos colegas das classes mais adiantadas travava no parque, sobre um banco.

Naqueles nossos debates estudantis não havia fronteiras ou escolhas; todos os princípios eram revolvidos e palavras poeirentas minavam, pelo alicerce, mundos espirituais inteiros. Naturalmente depois de tudo permanecia em seu lugar, mas aquelas palavras apaixonadas eram significativas para nós e para o destino que nos aguardava, como a antecipação de grandes empreendimentos de tempo ferozes e difíceis vacilações que ainda estavam por acontecer.

Depois de uma discussão vivaz, quando eu arfava de emoção, convencido de meu triunfo (exatamente como o meu adversário de debate), quando eu remava para casa, Maks juntou-se a mim. Era a primeira vez que ficávamos a sós. Isso agradava-me muito, elevava o meu orgulho de vencedor e a alta consideração que estava tendo a meu próprio respeito. Indagava o que eu andava lendo e observava-me atento, como se me estivesse vendo pela primeira vez na vida. Respondia-lhe emocionado. De repente, parou, fitou-me nos olhos e disse de maneira estranhamente calma:

 

– Sabe, eu queria dizer que você não citou Ernst Heckel corretamente.

 

Senti que enrubescia e que a terra se movia devagar debaixo de meus pés, para depois tornar ao lugar. É claro que havia citado de modo errado. A minha citação era de uma brochura barata, mal memorizada e, provavelmente, mal traduzida. Todo o meu triunfo antecedente havia se transformado em crise de consciência e sentimento de culpa. Aqueles olhos azuis-claros contemplavam-me sem piedade, mas também sem o menor traço de maldade ou superioridade. E Maks repetiu a minha citação infeliz da forma correta. E, quando chegamos diante da casa dele, às margens do rio Míliatska, apertou-me firme a mão e convidou-me para que, no dia seguinte, à tarde, fosse visitá-lo para ver-lhes os livros.

Aquela tarde foi pra mim uma aventura. Pela primeira vez na vida, via uma biblioteca de verdade e ficou claro que ali eu contemplava o meu destino. Maks possuía muitos livros alemães, e alguns em italiano e em francês, que pertenciam à mãe. Mostrava-me aquilo tudo com uma tranqüilidade que invejei mais do que os próprios livros. Aquilo nem sequer era inveja: era um sentimento de satisfação infindável e uma vontade forte de que um dia eu também pudesse movimentar-me com liberdade semelhante naquele mundo de livros, dos quais, tive a impressão, emanavam calor e luz. Ele próprio falava como se estivesse lendo um livro, livre, e movia-se naquele mundo de nomes gloriosos e grandes ideias sem exibicionismo, ao passo que eu tremia de emoção, de vaidade, envergonhando-me diante daqueles figurões entre os quais estava ingressando e temendo o mundo que havia deixado La fora e para o qual devia retornar.

Aquelas visitas vesperais ao colega mais velho se repetiram e tornaram-se mais frequentes. Rapidamente, aperfeiçoava-me em alemão e começava a ler o italiano. Também levava para minha modesta casa aqueles livros estrangeiros bem encadernados. Deixei de estudar as disciplinas da escola. Tudo o que lia parecia-me a verdade sacrossanta e uma obrigação para mim próprio, à qual não conseguia resistir, se não quisesse perder a autoconfiança. Eu sabia apenas uma única coisa: que era preciso ler aquilo tudo e que seria preciso escrever coisas como aquelas, ou parecidas. Não pensava em mais nada na vida.

Lembro-me especialmente de um determinado dia. Era o mês de maio. Maks preparava-se para os exames finais do ginásio, mas sem nervosismo ou esforço aparente. Conduziu-me até um pequeno armário separado sobre o qual, em letras douradas, estava inscrito Helios Klassiker-Ausgabe. E lembro-me também de que ele me havia dito que o armário havia sido comprado junto com os livros. Para mim até o armário era santo e a sua madeira, entretecida de luz. Maks retirou um volume de Goethe e começou a ler-me o “Prometeu”.

Ele apresentava uma voz nova, desconhecida para mim até então, e era possível sentir que havia lido aquele poema incontáveis vezes:

 

Zeus cobre o teu céu,

com uma nuvem de escuridão,

e feito criança maluca,

que destrói o cardo,

experimenta a tua força no carvalho e nos montes!

 

Mas deves deixar a minha terra,

e a minha cabana,

que tu não contruíste,

e o meu lar,

cujo fogo

tu me invejas!

 

No fim, ele esmurrava regular e fortemente o braço do sofá em que estava sentado: o cabelo caía-lhe sobre ambas as faces enrubescidas.

 

Eis-me aqui sentado, criando homens

à minha imagem,

uma raça igual à minha,

para que sofra, chore,

goze e tenha alegrias,

e para que jamais se dirija a ti,

assim como eu também não!

 

Foi a primeira vez que o vi naquele estado. Ouvia-o embevecido e com leve temor. Saímos em seguida e continuamos a conversar a respeito do poema no anoitecer quente. Maks acompanhou-me ate minha rua íngreme e, a seguir, eu o acompanhei até a beira do rio: depois, ele a mim, e eu a ele. Já era noite e havia poucas pessoas nas ruas, mas nós recontávamos aquele caminho, enquanto discutíamos a respeito do sentido da vida e sobre a origem dos deuses e dos homens. Lembro-me especialmente de um momento. Quando havíamos chegado, pela primeira vez, á minha modesta rua e nos detivemos diante de uma cerca de madeira encurvada e cinza, Maks estendeu, de modo engraçado, a mão esquerda diante de si e disse-me em confiança, assim com certa ênfase:

 

– Sabe, eu sou ateu.

 

Sobre a cerca tombada, o sabugueiro entretecia-se denso e espalhava um perfume forte e pesado que me chegava como o cheiro da própria vida. A noite era solene, tudo estava quieto em torno de nós, e a cúpula do céu estava cheia de estrelas, e parecia-me nova. Emocionado, não consegui dizer nada. Senti, apenas, que algo importante havia acontecido entre mim e aquele colega mais velho e que não nos poderíamos simplesmente separar e cada um ir para a sua casa. Ficamos passeando até determinada hora da noite.

A formatura de Maks separou-nos. Ele foi estudar medicina em Viena. Durante certo tempo, correspondemo-nos, mas depois as cartas rarearam. Víamo-nos, às vezes, durante as férias, mas sem a intimidade antiga. Depois, veio a guerra que nos separou por completo.

E, agora, alguns anos mais tarde, encontramo-nos novamente, nessa estação horrível e cansativa. Viajamos de Sáraievo até lá no mesmo trem, sem que soubéssemos, e conseguimos ver-nos apenas na estação, enquanto aguardávamos a vinda do trem de Belgrado.

Contamos um ao outro, em poucas palavras, como havíamos passado a guerra. No primeiro ano de guerra, ele já havia concluído o curso e, depois, esteve, como médico, em todas as frentes de batalha austríacas, servindo sempre nas brigadas bosnianas. O pai dele havia falecido de tifo durante a guerra, e a mãe dele abandonara Sáraievo, mudando-se para Trieste, onde lhe estavam os parentes. Os últimos meses, Maks havia passado em Sáraievo, o suficiente para arrumar suas coisas. Em acordo com a mãe, vendeu sua casa paterna à beira do rio Míliatska e a maior parte dos objetos também. Agora está viajando para Trieste, para juntar-se á mãe, e de lá pensa em viajar para a Argentina ou, quem sabe, para a Bolívia. Não se expressa claramente a esse respeito, mas fica evidente que está deixando a Europa para sempre.

Maks ficou encorpado com a vida na frente de batalha, tornou-se rude, vestia-se como um negociante, pelo que posso enxergar. No escuro, vislumbro-lhe a cabeça forte com o abundante cabelo claro e ouço-lhe a voz que, com os anos, se tornou mais profunda e mais masculina, e sua pronúncia de Sáraievo tem as consoantes amaciadas e as vogais tensas e confusas. Era possível sentir no seu falar certa falta de segurança.

Agora também falava como se estivesse lendo; empregava muitas palavras poucos usuais e expressões científicas e livrescas. Mas isso era a única coisa que havia restado do Maks de outrora. De resto, as lembranças não eram mais sobre livros ou poesias (ninguém mais se lembrava do “Prometeu”). Falava-me primeiro algo a respeito da guerra, em geral, e com grande amargura, mais no tom do que nas palavras; com uma amargura que ele nem espera que seja captada. (Para ele, nesta grande guerra, pode afirmar-se que não havia mais adversários, porque eles se misturavam, confundiam-se e juntavam-se por completo. O sofrimento generalizado turvou-lhe a visão e privou-o da compreensão de todo o resto.) Lembro-me de que fiquei estarrecido quando me disse que cumprimentava os vencedores da guerra e que sentia profunda pena deles, porque os vencidos estavam vendo onde havia ficado e a tarefa que os aguardava, ao passo que os vencedores mal desconfiavam daquilo que os esperava. Falava no tom desesperançado e azedo de um homem que havia perdido muito e que agora podia dizer o que bem entendesse, por saber que ninguém poderia fazer-lhe coisa alguma, e que isso nem sequer poderia ajudá-lo. Depois desta grande guerra, era possível encontrar entre os inteligentes muitos desses homens amargurados, amargurados de uma forma muito especial, por causa de algo indeterminado na vida. Esses homens não encontravam dentro de si nem a capacidade de apaziguar-se e adaptar-se nem a força das grandes decisões em sentido contrário. Ele precisa-me naquele momento, era um daqueles.

Mas a nossa conversa emperrou depressa, porque nem ele nem eu desejávamos discutir naquela noite, nem lugar incomum, em que nos víamos após tantos anos. Por isso, falávamos a respeito de outras coisas. De fato, quem falava era ele. Falava agora, com aquelas suas palavras escolhidas e aquelas frases complexas, como um homem que vive mais entre do que entre homens, assim como você abre um livro de medicina e encontra nele os sintomas de sua própria doença.

Ofereço-lhe um cigarro, mas ele me diz que não fuma, e pronuncia isso depressa, com verdadeiro medo e repugnância. E enquanto eu vou acendendo um cigarro com o outro, ele continua falando com despreocupação forçada, como se estivesse afastando com isso outras ideias, mas pesadas.

 

– Eis-nos aqui, ambos diante de grandes perspectivas, como quem agarra o trinco de uma porta que conduz para o mundo. Estamos deixando a Bósnia. Eu jamais voltarei para cá, mas você voltará.

 

– Quem sabe – observei pensativo, movido por aquela vaidade especial com a qual as pessoas jovens gostam de enxergar o próprio destino em terras longínquas e em percursos pouco usuais.

 

– Não, não, você vai voltar de qualquer modo – diz o meu companheiro de viagem, confiante como quem faz diagnostico. – E eu carregarei à vida toda a lembrança da Bósnia, como quem tem uma enfermidade bosníaca, cuja causa, nem eu mesmo sei, talvez seja o fato de eu ter nascido e crescido na Bósnia ou o fato de que eu jamais tornarei a pôr os pés na Bósnia. Tanto faz.

 

Num lugar incomum, uma hora incomum, a conversa também vai se tornando incomum, quase como num sonho. Contemplo de viés a silhueta forte e retesada de meu antigo colega ao meu lado e fico pensando; penso quão pouco ele se parece com aquele jovem que batia com os punhos e declamava: “Zeus, cobre o teu céu…”. Fico pensando o que será de nós, se a vida continuar a modificar-nos tão rápida e profundamente, e penso que somente as mudanças que consigo perceber em mim é que são boas e corretas. E enquanto penso isso tudo, apercebo-me, de repente, que o colega a meu lado está falando de novo. Desperto de meus pensamentos, ouço-o com atenção. Com tanta atenção que tenho a impressão de que esses ruídos da estação ao redor de mim silenciaram e que somente a voz dele farfalha na noite povoada de vento.

 

– Sim, por muito tempo eu realmente pensei que, a exemplo de meu pai, passaria a vida tratando das crianças de Sávaievo e que, a exemplo dele, eu também deixaria os meus ossos no cemitério de Kóchevo. Mas aquilo tudo que vi e vivi nos regimentos bosnianos, durante a guerra, deixou-me em duvida quanto a isso, e quando, neste verão, fui desmobiliado e passei três meses em Sávaievo, ficou claro que eu não poderia ficar e viver aqui. E a própria ideia de viver em Viena, Trieste, ou qualquer outra cidade austríaca causa-me repugnância, repugnância de provocar vômito. E foi por isso que comecei a pensar na América do Sul.

 

– Certo, mas é possível saber o que é aquilo de que você esta fugindo na Bósnia? – indaguei com a falta de cautela com que, então, as pessoas de minha idade faziam perguntas.

 

– Sim, é possível saber, só que isso não é fácil de dizer assim, aqui, de passagem, numa estação. Mas, se, apesar disso, tivesse de dizer numa única palavra o que está me expulsando da Bósnia, diria: o ódio.

 

Maks levantou-se depressa, como se, durante a sua fala, tivesse trombado com uma parede invisível. Eu também desembarquei na realidade da noite fria na estação ferroviária de Slávonski Brod. O vento tornava-se mais forte e mais gelado, as luzes piscavam e passavam na distancia; pequenas locomotivas apitavam. Acima de nós, desapareceu também aquela pequena nesga de céu com estrelas raras: apenar a névoa e a fumaça podem compor o cobertor digno para esta planície em que a gente, tenho a impressão, vai afundando até os olhos numa terra arável negra e gordurosa.

E surgiu-me, crescendo depressa, um desejo áspero e violento de rebater-lhe as informações, embora elas não me tenham ficado suficientemente claras e compreensíveis. Confusos, ambos permaneceram calados. Aquele silêncio entre nós pesava na noite e não se podia prever quem seria o primeiro a pronunciar-se

Naquele instante ouviu-se, ao longe, o barulho do trem veloz e, a seguir, o seu silvo pesado, surdo, como se estivesse vindo por debaixo de um firmamento de concreto. A estação inteira reviveu de pronto. Centenas de figuras até então invisíveis levantaram-se na escuridão e começaram a correr em direção ao trem. Nós dois também pulamos, e a multidão em que nos metemos separava-nos cada vez mais. Consegui ainda gritar-lhe o meu endereço de Belgrado.

Vinte dias mais tarde, recebi, em Belgrado, uma carta volumosa. Não pude reconhecer a caligrafia graúda. Maks escrevia-me de Trieste, em alemão.

 

Caro e velho amigo

Quando nos encontramos casualmente em Slávonski Brod, a nossa conversa acabou sendo entrecortada e difícil. E, ainda que tivéssemos tido oportunidade melhor e mais tempo, não creio que teríamos conseguido entender-nos e passar tudo a limpo. O encontro inesperado e a separação rápida impediram isso por completo. Estou me preparando para deixar Trieste, onde vive minha mãe. Vou para Paris, onde tenho alguns parentes por parte de mãe. Se lá permitirem que exerça a medicina, ficarei em Paris: caso contrário, vou para a América do Sul.

Não acredito que algumas destas opiniões desconexas que lhe estou escrevendo sejam capazes de explicar a coisa, na integra, ou ainda justificar diante de seus olhos a minha “fuga” da Bósnia. Ainda assim, estou as enviando, porque sinto dever a você uma resposta  porque, lembrando-me de nossos tempos de estudantes, não desejaria que você me entendesse de modo equivocado, nem que você  visse em mim um simples gringo e aventureiro, que deixa facilmente a terra em que nasceu no exato momento em que ela começa sua vida livre, e quando ela necessita de todos os esforços.

Deixe-me passar direto ao assunto. A Bósnia é uma região bela, interessante, incomum tanto por sua natureza quanto por sua gente. Assim como debaixo do solo bosníaco existem riquezas minerais, sem dúvida alguma o homem da Bósnia encerra dentro de si grandes valores morais que raras vezes podem ser encontrados em seus patrícios de outras regiões iugoslavas. Mas, veja você, existe algo que os homens da Bósnia, ao menos os homens da sua espécie, deveriam reconhecer, para jamais perder de vista: a Bósnia é uma terra de ódio e medo. Mas deixemos de lado o medo, que é correlativo ao ódio, seu eco natural, e falemos de ódio. Sim, do ódio. Você também se rebela e se remexe quando ouve essa palavra (pude vê-lo naquela noite, na estação), assim como nós todos resistimos em ouvi-la, compreendê-la e reconhecê-la. No entanto, tudo reside no fato de que seria necessário enfrentá-la, desmistificá-la, analisá-la. E a desgraça está no fato de que ninguém deseja ou pode fazê-lo. Porque a característica fatal desse ódio é que o homem bosníaco não está consciente do ódio que vive dentro dele, que transpira de sua análise, e odeia a todos quantos queiram fazê-lo. E, ainda assim, o fato é que na Bósnia-Khertsegóvina há mais pessoas disposta a matar ou a ser mortas, sob a ação do ódio inconsciente, em ocasiões diversas e sob vários argumentos, do que em outras terras, eslavas ou não-eslavas, muito maiores em população ou território.

Sei que o ódio e a raiva possuem uma função no desenvolvimento social, porque o ódio gera a força e a raiva promove o movimento. Existem injustiças e maus usos vetustos, e profundamente arraigados, que somente ondas de ódio e raiva são capazes de arrancar ou desbastar. E, quando essas ondas se assentam e desaparecem, gera-se o espaço para a liberdade e para a criação de uma vida melhor. Os contemporâneos enxergam muito mais o ódio e a raiva, porque sofrem em conseqüência deles, mas as gerações futuras contemplarão somente os frutos da força e do movimento. Sei-o bem. Mas isto eu vi na Bósnia, isto é uma coisa diferente. Isto é um ódio, não um movimento qualquer no fluxo do desenvolvimento social ou parcela inescapável de um processo histórico, mas um ódio que atua como força independente, que encontra o objetivo em si próprio. Um ódio que ergue o homem contra o homem e, a seguir, lança, de modo idêntico, ambos os adversários na miséria e na desgraça, ou os empurra para debaixo da terra: um ódio que, feito um câncer que desgasta o organismo e tudo corrói à sua própria volta, morre no final, como a chama sem feição própria ou vida autônoma: ele é apenas instrumento de um impulso de destruição ou autodestruição, existe apenas como tal e até que execute a sua tarefa de exterminação completa.

Sim, a Bósnia é a terra do ódio. Isso é a Bósnia. E, por um estranho contraste, que talvez nem mesmo seja tão estranho e, quem sabe, poderia ser explicado através de uma análise mais meticulosa, pode-se afirmar também que existem poucas terras nas quais há tanta fé granítica, tanta firmeza de caráter, tanta delicadeza e tanto amor abrasivo, tanta profundidade de sentimentos e afeição, tanta dedicação inabalável e tanta sede de justiça. Mas, debaixo disso tudo, mascaram-se, nas profundidades impenetráveis, ondas de ódio, tempestades inteiras de ódio condensado e tenso, ódios que amadurecem à espera de seu momento. Entre os vossos amores e os vossos ódios a relação é a mesma que existe entre as vossas montanhas elevadas e as camadas geológicas invisíveis, mil vezes maiores e mais pesadas, sobre as quais eles estão assentados. E, assim, estais condenados a viver sobre profundas camadas de explosivos que, de tempos em tempos, incendeiam com uma faísca aqueles vossos amores e aquelas vossas sensibilidades fogosas e impiedosas. Talvez a vossa maior desgraça resida exatamente no fato de que nem sequer conseguis perceber quanto de ódio existe em vossos amores, em vosso êxtase, em vossas tradições e em vossa devoção. E assim como o solo sobre o qual vivemos, sob a influência do calor e da umidade atmosféricos, funde-se com os nossos corpos – conferido-lhes a cor e o aspecto e determinando a direção e o caráter do nosso modo de vida e de nossas ações –, também o ódio potente, subterrâneo e invisível, dentro do qual o homem bosníaco vive, penetra, sorrateiro e indireto, em todas as suas ações, inclusive nas melhores. Em todas as partes do mundo, os vícios geram o ódio, porque desgastam e nada criam, destroem e nada edificam: contudo, em territórios como a Bósnia, as qualidades também, frequentes vezes, se pronunciam e atuam através do ódio. Os vossos ascetas não extraem o amor de sua ascese, mas do ódio aos voluptuosos; os abstêmios odeiam aos que bebem, e os bêbados têm ódio mortal contra o mundo inteiro. Aqueles que crêem e amam, odeia mortalmente os que não crêem ou aqueles que crêem de forma diversa ou amam outra coisa. E, desafortunadamente, a parte principal da crença ou do amor deles esfarela-se, muitas vezes, no ódio (podemos encontrar o maior número de indivíduos maus e negativos em volta dos templos, mosteiros e minaretes). Aqueles que oprimem e exploram os que são economicamente mais fracos introduzem ainda nisso o ódio, que centuplica a exploração, tornando-a mais pesada e mais horrível, e aqueles que suportam as injustiças sonham com a justiça e com a vingança, mas como se elas fossem uma explosão vingativa que, se pudesse concretizar-se segundo a imaginação deles, seria grande a ponto de desintegrar o explorado juntamente com o explorador detestado. A maioria de vós está habituada a deixar toda a força do ódio para aquilo que está próximo de vós. Os vossos santos amados geralmente estão a milhares de léguas de distância, ao passo que os objetos de vossa repugnância e ódio estão ao vosso lado, na mesma cidade, quase sempre do outro lado de vosso muro. Assim, o vosso amor não exige muitas obras, mas o vosso ódio freqüentemente frutifica. E vós amais em vossa terra natal, amais de maneira ardente, mas de três ou quatro modos diferentes, que se excluem mutuamente, odeiam mortalmente e, muitas vezes, colidem.

Num conto qualquer de Maupassant, há uma descrição dionisíaca da primavera que se encerra com a afirmação de que nesses dias seria preciso colar o seguinte cartaz pelas esquinas: “Cidadãos franceses, é primavera: cuidado com o amor!”. Talvez fosse preciso advertir os homens da Bósnia para que se resguardem do ódio inato, inconsciente e endêmico, a todo passo, em todos os seus pensamentos e em todos os seus sentimentos, inclusive nos mais elevados. Porque esta terra atrasada e miserável, em que quatro diferentes regiões convivem comprimidas, necessitaria de quatro vezes mais amor, mais compreensão mutua e mais tolerância do que outras terras. E na Bósnia, ao contrario, existe uma incompreensão que, de tempos em tempos, se transforma em ódio aberto, praticamente uma característica geral de seus habitantes. Entre as diversas religiões os fossos são tão profundos que somente o ódio consegue atravessá-los de vez em quando. Sei que podem responder-me, e com muita justiça, que com relação a isto é possível perceber certo progresso, porque as ideias do século XIX já foram aceitas, e que agora, após a liberação e a unificação, tudo deverá correr melhor e de maneira mais rápida. Receio que não seja exatamente assim (tenho a impressão de que, nestes poucos meses, pude ver bem as relações efetivas entre as pessoas de regiões e etnias diferentes em Sáraievo!). “Haverão de imprimir e repetir, por toda parte em todas as oportunidades: “É um caro irmão, qualquer que seja a sua religião”, “Não se pergunta como cada um faz o sinal-da-cruz, mas qual é o sangue que lhe aquece o peito”, “Respeita os estranhos e orgulha-te dos teus”, “A unidade integral do povo desconhece diferenças religiosas e tribais”. Mas sempre houve bastante hipocrisia nos círculos burgueses bosnianos, uma prevaricação sabia de si próprio e dos outros com palavras sonantes e um cerimonial vazio. De certo modo, isso esconde o ódio, mas não o afasta nem lhe impede o crescimento. Receio que, por debaixo do cobertor de todas as mascaras contemporâneas, os impulsos atávicos e os planos de Caim estejam apenas adormecidos nesses círculos, e que eles haverão de sobreviver até que não tenham sido alteradas, por completo, as bases da vida material e espiritual da Bósnia. E quando haverá de chegar esse tempo e quem terá forças para realizá-lo? Virá um dia, creio nisto, mas o que eu vi na Bósnia não sinaliza que já estejamos trilhando esse caminho. Ao contrário.

Pensei a respeito disso, especialmente durante os últimos meses, quando lutei com a decisão de deixar a Bósnia para sempre. É compreensível que um homem que tenha esses pensamentos não consiga dormir tranqüilo. E eu também fiquei deitado ao lado da janela aberta do quarto em que nasci, enquanto o rio Míliatska rumorejava junto com o vento do outono que mal entrou e com a folhagem ainda abundante.

Quem consegue passar em Sáraievo uma noite acordado em sua cama pode ouvir as vozes da noite de Sáraievo. O relógio bate forte e certeiro sobre a catedral católica: duas horas da madrugada. Passa-se mais de um minuto (exatamente setenta e cinco segundos, contei-os) e somente então o relógio da igreja ortodoxa pronuncia-se com voz mais débil e mais penetrante; ele também bate as suas duas horas da madrugada. Logo depois dele, bate, com voz semi-rouca e distante, a torre do relógio do minarete chamado Begova Djámiya, mas bate onze horas, horas turcas fantasmagóricas, segundo o calculo enigmático de regiões distantes e estranhas do mundo! Os judeus não possuem um relógio que bata as suas horas, mas somente o Deus único sabe que horas são para eles, quantas horas são pelo cálculo sefardita e quantas pelo cálculo asquenazita. Assim, enquanto tudo dorme a diferença de contagem das horas desertas que divide essas pessoas adormecidas permanece em vigília, inclusive de madrugada, e, quando acordadas, elas se queixam, alegram-se, recebem visitas e jejuam segundo quatro calendários distintos e conflitantes, e enviam para o mesmo céu, em quatro línguas religiosas diferentes, todos os seus desejos e preces. E essa diferença – por vezes de maneira aberta e visível, por vezes de maneira invisível e desleal – sempre se assemelha ao ódio e, freqüentemente, iguala-se-lhe.

Seria preciso estudar esse ódio bosníaco específico, e combatê-lo como a uma doença cruel, profundamente enraizada. E eu creio que os pesquisadores estrangeiros viriam à Bósnia para analisar o ódio assim como pesquisam a lepra, bastando para isso que o ódio fosse reconhecido, destacando e classificando como objeto de pesquisa, a exemplo da lepra.

Pensei em estudar eu próprio esse ódio e, ao analisá-lo e trazê-lo à luz do dia, contribuir para a sua eliminação. Talvez fosse minha obrigação fazê-lo, porque foi nessa terra que eu vim ao mundo, a despeito de minha origem estrangeira. Mas, depois das primeiras tentativas e de muito raciocinar, reconheci que não possuo habilidade nem forças para isso. Exigiriam de mim, a exemplo do que se faz com os demais, que tomasse partido e que eu próprio fosse odiado e odiasse. E nem desejei nem pude fazê-lo. Já que deve ser assim, quem sabe eu concordaria em cair vitima do ódio; contudo, viver no ódio, e com o ódio, participar dele, isso eu não posso. E, numa terra como a Bósnia atual, aquele que não pode odiar ou conscientemente (o que representa mais e algo mais difícil) não deseja odiar, sempre é um pouco abastardado ou estrangeiro e, muitas vezes, mártir. Isso também vale para vós, bosnianos natos, e, sobretudo para o imigrante. E foi assim que concluí que, numa dessas noites de outono, ouvindo os chamados estranhos das diferentes torres de sons distintos de Sáraievo, não posso ficar em minha segunda pátria, a Bósnia, que não devo nela permanecer. Não sou inocente ao ponto de procurar uma cidade no mundo em que inexista o ódio. Não, para mim basta um lugar em que eu possa viver e trabalhar. Aqui eu não poderia fazê-lo.

Você, talvez repita, com ironia ou desprezo, as suas palavras a respeito de minha fuga da Bósnia. Esta minha carta não terá forças para explicar-lhe ou justificar-lhe a minha atitude; entretanto, há circunstâncias na vida em que vale o antigo provérbio latino: Non est salus nisi in fuga. Peço-lhe apenas que me acredite o seguinte: não estou fugindo do meu dever de ser humano, mas estou fugindo para que possa executá-lo por completo em sem obstáculos.

Desejo, para você e para a nossa Bósnia, toda a sorte nessa vida nacional e popular!

Seu M. L.

 

Passaram-se dez anos. Poucas vezes me lembrava de meu companheiro de infância e haveria de esquecê-lo por completo, se o pensamento básico de sua carta não me fizesse, de tempo em tempo, lembrar-me dele. Por volta de 1930, soube casualmente que o doutor Maks Lewenfeld permaneceu em Paris, e que no bairro de Neuilly mantinha uma clínica bem conhecida: passou a ser conhecido em nossa comunidade e entre os trabalhadores iugoslavos como nosso médico, que tratava de graça estudantes e trabalhadores e, quando necessário, dava-lhes remédio ele próprio.

Passaram-se, mais sete ou oito anos. Certo dia, novamente de maneira casual, soube do destino posterior de meu colega. Quando a guerra civil eclodiu na Espanha, deixou tudo e, na qualidade de voluntario, alistou-se no Exercito Republicano. Organizou ambulatórios e hospitais; fez-se conhecido devido ao saber e ao zelo. No começo de 1938, estava numa cidadezinha de Aragão, cujo nome nenhum de nossos patrícios conseguia pronunciar corretamente. Um ataque aéreo atingiu-lhe o hospital e, em pleno dia, ele veio a falecer junto com todos seus feridos.

Foi assim que terminou a vida do homem que fugiu do ódio.

 

NOTA

NON EST SALUS NISI IN FUGA. (em latim, no original) – “Só há salvação na fuga”.

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