Leia na íntegra dois contos  muito interessantes de Truman Capote junto com algumas cartas sobre os contos escritas por nossos leitores.

Para Gloria Dunphy

Um Natal

 

 

Truman Capote

 

 

Primeiro, um breve prólogo autobiográfico. Minha mãe, que era excepcionalmente inteligente, era a moça mais bonita do Alabama. Todo mundo dizia isso, e era verdade; e, quando estava com dezesseis anos, casou com um negociante de vinte e oito que pertencia a uma boa família de Nova Orleans. O casamento durou um ano. Minha mãe era jovem demais para ser mãe ou esposa; também era ambiciosa demais — queria ir para a faculdade e ter uma profissão. Assim, deixou o marido; e, quanto ao que fazer comigo, entregou-me aos cuidados de sua vasta família do Alabama.

 

Ao longo dos anos, raramente vi meus pais. Meu pai estava ocupado em Nova Orleans, e minha mãe, depois de se formar na faculdade, foi perseguir o sucesso em Nova York. Para mim, não era uma situação desagradável. Eu era feliz onde estava. Tinha muitos parentes amorosos, tios e tias e primos, em especial uma prima, uma velha de cabelo branco, ligeiramente entrevada, chamada Sook. Srta. Sook Faulk. Eu tinha outros amigos, mas ela era, de longe, minha melhor amiga.

 

Foi Sook quem me falou do Papai Noel, de sua barba esvoaçante, sua roupa vermelha, seu trenó tilintante, cheio de presentes, e eu acreditava nela, assim como acreditava que tudo era vontade de Deus, ou do Senhor, como Sook sempre O chamava. Se eu dava um tropeção, ou caía do cavalo, ou pescava no riacho um peixe alentado — bom ou mau, tudo era vontade do Senhor. E foi o que Sook disse quando recebeu a assustadora notícia de Nova Orleans: meu pai queria que eu fosse passar o Natal com ele.

 

Chorei. Não queria ir. Nunca havia deixado aquela remota cidadezinha do Alabama, cercada de florestas e fazendas e rios. Nunca dormi sem Sook passando os dedos por meu cabelo e dando-me um beijo de boa-noite. E, além do mais, eu tinha medo de estranhos, e meu pai era um estranho. Eu o tinha visto várias vezes, porém a lembrança era vaga; eu não fazia idéia de como ele era. Mas, como Sook disse: “É a vontade do Senhor. E quem sabe, Buddy, pode ser que você veja neve”.

 

Neve! Até eu aprender a ler, Sook leu muitas histórias para mim, e parecia que em quase todas havia muita neve. Flocos de contos de fadas, flutuando no vento, deslumbrantes. Era algo com que eu sonhava; algo mágico e misterioso que eu queria ver e sentir e tocar. Naturalmente nunca vi, Sook tampouco; como haveríamos de ver, morando num lugar quente como o Alabama? Não sei por que ela pensou que eu veria neve em Nova Orleans, pois Nova Orleans é mais quente ainda. Não importa. Ela só estava tentando me encorajar a fazer a viagem.

 

Ganhei um terno novo. Tinha um cartão preso na lapela com meu nome e endereço. Para o caso de me perder. Sabe, eu ia viajar sozinho. De ônibus. Bom, todo mundo achava que eu ficaria seguro com a etiqueta. Todo mundo, menos eu. Eu estava morrendo de medo; e furioso. Furioso com meu pai, aquele estranho que estava me obrigando a deixar minha casa e me afastar de Sook na época do Natal.

 

Era um trajeto de seiscentos e quarenta quilômetros, algo assim. A primeira parada era em Mobile. Fiz baldeação lá e rodei sem parar em meio a terras alagadiças e ao longo do litoral até chegar a uma cidade barulhenta, repleta de bondes e de gente perigosa com cara de estrangeiro.

 

Era Nova Orleans.

 

E de repente, quando desci do ônibus, um homem me tomou nos braços, me tirou o fôlego; e ria, e chorava — um homem alto, bonito, rindo e chorando. E perguntou: “Não está me conhecendo? Não está conhecendo o seu papai?”.

 

Perdi a fala. Não disse uma palavra até que, já no táxi, finalmente perguntei: “Onde é?”.

 

“A nossa casa? Não é longe…” “Não a casa. A neve.”

“Que neve?”

 

“Eu achei que tinha um monte de neve.”

 

Ele me olhou de um jeito esquisito, mas riu. “Nunca nevou em Nova Orleans. Não que eu saiba. Mas escute. Está ouvindo esse trovão? Com certeza vai chover!”.

 

Não sei o que me assustou mais, o trovão, os ziguezagues sibilantes que se sucederam — ou meu pai. Nessa noite, quando me deitei, ainda chovia. Fiz minhas orações e rezei para logo estar em casa, com Sook. Não sei como conseguiria pegar no sono, sem Sook para me dar o beijo de boa-noite. O fato é que não consegui dormir, então comecei a imaginar o que o Papai Noel haveria de me trazer. Eu queria uma faca com cabo de madrepérola. E uma vasta coleção de quebra-cabeças. Um chapéu de caubói com laço combinando. E uma espingarda de chumbinho para matar pardal. (Anos depois, quando realmente ganhei uma espingarda de chumbinho, matei um tordo-dos-remédios e uma codorniz e não vou esquecer nunca o remorso que senti, a dor; nunca mais matei, e cada peixe que pesco jogo de novo na água.) E eu queria uma caixa de lápis de cor. E, principalmente, um rádio, mas sabia que era impossível: eu não conhecia dez pessoas que tivessem rádio. Lembre, era a Depressão, e no Sul eram raras as casas com rádio ou geladeira.

 

Meu pai tinha os dois. Parece que tinha tudo — inclusive uma baratinha, para não falar numa casinha no bairro francês, linda, antiga, cor-de-rosa, com sacadas de ferro rendilhado e um jardim secreto nos fundos, pintalgado de flores e refrescado por uma fonte em forma de sereia. Também tinha uma meia dúzia, eu diria uma dúzia inteira, de amigas. Como minha mãe, ele não se casou novamente; mas ambos tinham admiradores decididos e, querendo ou não, acabaram tomando o caminho do altar — na verdade, meu pai o tomou seis vezes.

 

Portanto, você já percebeu que ele tinha lá seu encanto; e, de fato, parecia encantar a maioria das pessoas — todo mundo, menos eu. Isso porque me constrangia demais, sempre me arrastando para conhecer seus amigos, todo mundo, do banqueiro ao barbeiro que o barbeava diariamente. E, claro, todas as suas amigas. E a pior parte: ele me abraçava e me beijava e se gabava de mim o tempo todo. Eu ficava com muita vergonha. Para começo de conversa, não havia de que se gabar. Eu era um autêntico interiorano. Acreditava em Jesus e rezava fielmente. Sabia que o Papai Noel existia. E em casa, no Alabama, nunca usava sapato, a não ser para ir à igreja; inverno ou verão.

 

Era pura tortura ser arrastado pelas ruas de Nova Orleans naqueles sapatos amarrados firmemente, quentes como o inferno, pesados como chumbo. Não sei o que era pior — os sapatos ou a comida. Em casa, eu estava acostumado com frango frito e couve e feijão-manteiga e broa de milho e outras coisas reconfortantes. Mas aqueles restaurantes de Nova Orleans! Jamais vou esquecer minha primeira ostra, foi como um sonho ruim escorregando goela abaixo; décadas se passaram até eu engolir outra. Quanto a toda aquela condimentada culinária crioula — só de pensar me dava azia. Não, senhor, eu suspirava por biscoitos tirados do forno e leite fresco da vaca e melaço caseiro direto do tacho.

 

Meu pobre pai não tinha idéia de meu sofrimento, em parte porque eu nunca o demonstrei, com certeza nunca lhe contei; e em parte por- que, apesar do protesto de minha mãe, ele obtivera minha custódia legal para aquele feriado de Natal.

 

Ele dizia: “Fala a verdade. Você não quer vir morar comigo, aqui, em Nova Orleans?”.

 

“Não posso.”

 

“Como assim, não pode?”

 

“Eu sinto falta da Sook. Sinto falta da Queenie; a gente tem uma terrierzinha rateira, uma coisinha engraçada. Mas nós dois a amamos.”

 

Ele perguntou: “Você não me ama?”.

 

Eu respondi: “Sim”. Mas a verdade era que, com exceção de Sook e Queenie e uns poucos primos e um retrato de minha linda mãe ao lado de minha cama, eu não tinha nenhuma idéia real do que significava amar.

 

Logo descobri. Na véspera do Natal, caminhávamos pela rua Canal, e de repente parei, mesmerizado por um objeto mágico que avistei na vitrine de uma grande loja de brinquedos. Era um avião de tamanho suficiente para eu sentar dentro dele e pedalar, como na bicicleta. Era verde e tinha um propulsor vermelho. Eu estava convencido de que, pedalando bem rápido, poderia decolar e voar! Não seria fantástico? Imaginei meus primos, plantados no chão, enquanto eu voava por entre as nuvens. O avião verde, eles verdes de inveja: haja verde! E ri; e ri, e ri. Foi a primeira coisa que fiz que deixou meu pai com um ar confiante, embora ele não soubesse o que eu achara tão engraçado.

 

Nessa noite, rezei para o Papai Noel me trazer o avião.

 

Meu pai já tinha comprado uma árvore de Natal, e passamos um tempão numa loja de artigos populares, comprando uma porção de coisas para enfeitá-la. Então cometi um erro. Pus um retrato de minha mãe embaixo da árvore. Assim que o viu, meu pai ficou branco e se pôs a tremer. Eu não sabia o que fazer. Mas ele sabia. Foi até um armário e tirou um copo alto e uma garrafa. Reconheci a garrafa, porque todos os meus tios do Alabama tinham muitas iguaizinhas àquela. Driblando a Lei Seca. Ele encheu o copo alto e bebeu praticamente de um só fôlego. Depois, foi como se o retrato desaparecesse.

 

E assim aguardei a noite de Natal e o advento, sempre empolgante, do gordo Papai Noel. É óbvio que eu nunca tinha visto um gigante pesa- do, tilintante, barrigudo despencar chaminé abaixo e alegremente distribuir suas dádivas sob uma árvore de Natal. Meu primo Billy Bob, que era um tampinha enfezado, com um punho de ferro no lugar do cérebro, disse que era um monte de besteiras, que tal criatura não existia.

 

“Claro que não!”, assegurou. “Quem acredita em Papai Noel também acha que mula é cavalo.” Essa discussão ocorreu na pracinha do tribunal. Rebati: “O Papai Noel existe, porque o que ele faz é a vontade do Senhor, e tudo o que é a vontade do Senhor é a verdade”. E Billy Bob, cuspindo no chão, afastou-se: “Parece que a gente arrumou mais um pregador”.

 

Sempre jurei que nunca dormiria na véspera do Natal, eu queria ouvir a dança saltitante das renas no telhado e estar bem ali, ao pé da chaminé, para apertar a mão do Papai Noel. E, nessa véspera de Natal em especial, parecia-me que nada seria mais fácil que ficar acordado.

 

A casa de meu pai tinha três andares e sete cômodos, alguns deles imensos, sobretudo os três que davam para o jardim dos fundos: uma sala de visitas, uma sala de jantar e uma sala “musical”, para quem gostava de dança e carteado. Os dois andares superiores tinham sacadas de ferro rendilhado, verde escuro, em cujos meandros delicadamente se entrelaçavam buganvílias e ondulantes orquídeas-aranhas escarlates — uma trepadeira que lembra lagartos agitando suas línguas vermelhas. Era o tipo de casa que melhor se revelava nos assoalhos reluzentes e num vime aqui, num veludo lá. Podia ser confundida com a casa de um homem rico, mas era o lar de um homem faminto de elegância. Como ele conseguia satisfazer essa fome era um mistério para um menino pobre (mas feliz) e descalço do Alabama.

 

Contudo, não era mistério para minha mãe, que, tendo se formado na faculdade, usava todos os seus encantos sulinos para encontrar em Nova York um noivo realmente adequado, que pudesse lhe dar apartamentos na Sutton e casacos de zibelina. Não, ela sabia dos recursos de meu pai, embora só fosse tocar no assunto anos mais tarde, muito de- pois de adquirir cordões de pérolas para resplender no pescoço envolto em zibelina.

 

Ela foi me visitar num internato esnobe da Nova Inglaterra (onde seu rico e generoso marido custeava meus estudos) e, furiosa com alguma coisa que eu disse, gritou: “Então, você não sabe como é que ele vive tão bem? Como é que ele freta iates e faz cruzeiros pelas ilhas gregas?

 

As esposas! Pense em toda a longa fila delas. Todas viúvas. Todas ricas. Muito ricas. E todas muito mais velhas que ele. Velhas demais para casar com qualquer rapaz em seu juízo perfeito. É por isso que você é o único filho dele. E é por isso que eu nunca mais vou ter outro filho… Eu era jovem demais para ter filhos, mas ele era uma besta, ele me destruiu, me arruinou…”.

 

Apenas um gigolô, em todo lugar aonde eu vou, as pessoas param e olham para mim… Lua, lua sobre Miami… Este é meu primeiro caso, por favor, seja bondosa… Ei, moço, pode me dar dez centavos?… Apenas um gigolô, em todo lugar aonde eu vou, as pessoas param e olham para mim…

 

Enquanto ela falava (e eu tentava não ouvir, porque, ao declarar que meu nascimento a destruíra, ela estava destruindo a mim), essas músicas, ou músicas parecidas, me passavam pela cabeça. Ajudavam-me a não escutá-la e me lembravam da festa estranha e inesquecível que meu pai organizou em Nova Orleans naquela véspera de Natal.

 

O quintal estava repleto de velas, bem como os três cômodos que davam para o jardim dos fundos. A maioria dos convidados se reuniu na sala de visitas, onde o fogo suave da lareira fazia a árvore de Natal cintilar; muitos, porém, dançavam na sala de música e no quintal ao som de uma vitrola de corda. Tendo sido apresentado aos convidados e muito enaltecido, recebi ordem de subir; no entanto, do terraço de meu quarto pude observar toda a festa, ver todos os pares dançando. Vi meu pai valsar com uma dama graciosa ao redor do tanque que cercava a fonte de sereia. Ela era graciosa e usava um vaporoso vestido prateado que brilhava à luz das velas; mas era velha — no mínimo dez anos mais velha que meu pai, que estava então com trinta e cinco.

 

De repente me dei conta de que meu pai era, de longe, a pessoa mais jovem de sua festa. Nenhuma das senhoras, por encantadora que fosse, era mais jovem que a esguia valsista no esvoaçante vestido prateado. A mesma coisa se repetia com os homens, muitos dos quais fumavam havanas de cheiro adocicado;mais da metade tinha idade suficiente para ser pai de meu pai.

 

Então eu vi uma coisa que me fez pestanejar. Meu pai e sua ágil parceira tinham dançado até um nicho sombreado por orquídeas-aranhas escarlates; e estavam se abraçando, se beijando. Fiquei tão perplexo, fiquei tão irado, que corri para o quarto, pulei na cama e puxei as cobertas até a cabeça. O que meu pai, bonito, jovem, haveria de querer com uma velha daquelas! E por que toda aquela gente que estava lá embaixo não ia embora, para que o Papai Noel pudesse vir? Permaneci acordado durante horas, ouvindo-os partir, e, quando meu pai disse adeus pela última vez, escutei-o subir a escada e abrir minha porta para me espiar; mas fingi que estava dormindo.

 

Aconteceram várias coisas que me mantiveram acordado a noite inteira. Primeiro, os passos, o barulho de meu pai subindo e descendo a escada, respirando pesadamente. Eu tinha de ver o que ele estava fazendo. Assim, me escondi no terraço, entre as buganvílias. Dali eu tinha uma visão completa da sala de visitas e da árvore de Natal e da lareira, onde ainda ardia um fogo pálido. Além do mais, eu podia ver meu pai. Ele engatinhava embaixo da árvore, arranjando uma pirâmide de pacotes. Embrulhados em papel púrpura, e vermelho e dourado e branco e azul, farfalhavam quando ele os manuseava. Fiquei zonzo, pois o que vi me obrigava a reconsiderar tudo. Se aqueles presentes eram para mim, então obviamente não foram encomendados pelo Senhor e entregues pelo Papai Noel; não, eram presentes comprados e embrulhados por meu pai. O que significava que meu terrível priminho Billy Bob e outros garotos terríveis como ele não mentiram quando riram de mim e disseram que o Papai Noel não existia. O pior pensamento foi: será que Sook sabia a verdade e mentiu para mim? Não, Sook nunca mentiria para mim. Ela acreditava. Só que — bom, embora ela tivesse sessenta e tantos anos, em alguns aspectos era no mínimo tão criança quanto eu.

 

Fiquei olhando até meu pai terminar seus afazeres e apagar as poucas velas que ainda ardiam. Esperei até ter certeza de que ele estava na cama e dormia profundamente. Então desci para a sala de visitas, que ainda recendia a gardênia e havana.

 

Sentei lá, pensando: agora eu vou ter de contar a verdade para Sook. Uma raiva, uma estranha maldade espiralava dentro de mim: não se dirigia a meu pai, embora ele acabasse sendo sua vítima.

 

Quando amanheceu, examinei os cartões presos nos pacotes. Todos diziam: “Para Buddy”. Todos, menos um, que dizia: “Para Evangeline”. Evangeline era uma velha de cor que tomava Coca-Cola o dia inteiro e pesava uns cento e trinta quilos; ela era a empregada de meu pai — e uma mãe para ele. Decidi abrir os pacotes: era manhã de Natal, eu estava acordado, por que não? Não vou me dar o trabalho de descrever o que continham: só camisas e suéteres e outras chatices desse tipo. A única coisa de que eu gostei foi um vistoso revólver de espoleta. Imaginei que seria divertido acordar meu pai com uns disparos. E assim fiz.

 

Bang. Bang. Bang.

 

Ele saiu correndo do quarto, o olhar desvairado. Bang. Bang. Bang.

 

“Buddy… que diabos você acha que está fazendo?” Bang. Bang. Bang.

 

“Pare com isso!”

 

Eu ri. “Veja, papai. Veja todas as maravilhas que o Papai Noel trouxe para mim.”

 

Já calmo, ele entrou na sala e me abraçou. “Você gostou do que o Papai Noel trouxe para você?”

 

Sorri para ele. Ele sorriu para mim. Houve um longo momento de ternura, que se rompeu quando eu disse: “Gostei. Mas o que é que você vai me dar, papai?”. Seu sorriso se evaporou. Os olhos se apertaram, desconfiados — dava para ver que ele achava que eu estava aprontando alguma tramóia. Mas então corou, como que envergonhado de pensar o que pensava. Acariciou-me a cabeça, tossiu e disse: “Bom, eu pretendia esperar e deixar você escolher o que quisesse. Você quer alguma coisa em especial?”.

 

Lembrei-o do avião que vimos na loja de brinquedos da rua Canal. Ele ficou de queixo caído. Ah, sim, lembrava-se do avião e de como era caro. Mesmo assim, no dia seguinte eu estava sentado naquele avião, sonhando que voava para o céu, enquanto meu pai preenchia um cheque para um vendedor feliz. Houve alguma discussão sobre despachar o avião para o Alabama, mas fui inflexível — insisti em levá-lo comigo no ônibus das duas, que eu ia tomar naquela tarde. O vendedor pôs fim ao impasse, ligando para a empresa de ônibus, que declarou que podia cuidar disso facilmente.

 

Mas eu ainda não estava livre de Nova Orleans. O problema era uma garrafa de prata com bebida clandestina; talvez por causa de minha partida, meu pai passou o dia bebendo; e, no caminho da rodoviária, assustou-me ao agarrar meu pulso e murmurar, a voz rouca: “Eu não vou deixar você ir embora. Não posso deixar você voltar para aquela família maluca naquela casa velha maluca. Veja só o que fizeram com você. Um menino de seis anos, quase sete, falando em Papai Noel! É tudo culpa deles, todas aquelas solteironas azedas com suas Bíblias e suas agulhas de tricô, aqueles tios bêbados. Escute, Buddy. Deus não existe! Papai Noel não existe”. Ele apertava meu pulso de tal modo que doía. “Às vezes, oh, Deus, eu acho que sua mãe e eu, nós dois, devíamos nos matar por ter deixado isso acontecer…”. (Ele nunca se matou, mas minha mãe sim: enveredou pela rota do Seconal, trinta anos atrás.) “Me dê um beijo. Por favor. Por favor. Me dê um beijo. Diga para o seu papai que você o ama.” Mas eu não pude falar. Estava com muito medo de perder o ônibus. E estava preocupado com o avião, amarrado em cima do táxi. “Diga: ‘eu te amo’. Diga. Por favor. Buddy . Diga.”

 

Sorte minha que o taxista era um homem de bom coração. Porque, se não fosse a ajuda dele, e a ajuda de uns carregadores eficientes e de um policial amável, não sei o que teria acontecido quando chegamos à rodoviária. Meu pai tremia tanto que mal conseguia andar, porém o policial conversou com ele, acalmou-o, ajudou-o a se aprumar, e o taxista prometeu levá-lo para casa são e salvo. Mas meu pai só foi embora depois de ver os carregadores me colocarem no ônibus.

 

Uma vez no ônibus, afundei na poltrona e fechei os olhos. Senti uma dor esquisitíssima. Uma dor esmagadora, presente em toda parte. Pensei que, se tirasse meus pesados sapatos urbanos, aqueles monstros cruciantes, o sofrimento diminuiria. Tirei-os, mas a dor misteriosa não me deixou. De certo modo, nunca deixou; nunca deixará.

 

Doze horas depois, eu estava em casa, na cama. O quarto estava escuro. À minha cabeceira, Sook se balançava numa cadeira de balanço, produzindo um ruído tão tranquilizador quanto as ondas do mar. Eu tentara lhe contar tudo o que havia acontecido, e só parei quando fiquei rouco como um cão ululante. Ela passou os dedos por meu cabelo e explicou: “Claro que o Papai Noel existe. Só que uma única pessoa não poderia fazer tudo o que ele tem para fazer. Então o Senhor dividiu a tarefa entre todos nós. Por isso é que todo mundo é Papai Noel. Eu sou. Você é. Até o seu primo Billy Bob é. Agora durma. Conte estrelas. Pense na coisa mais silenciosa. Como a neve. Pena que você não viu a neve. Mas agora ela está caindo através das estrelas…”. As estrelas cintilavam, a neve rodopiava em minha cabeça; a última coisa que lembrei foi da voz serena do Senhor dizendo-me algo que eu precisava fazer. E no dia seguinte eu fiz. Fui com Sook até o correio e comprei um postal de um centavo. Esse postal existe até hoje. Foi encontrado no cofre de meu pai, quando ele morreu, ano passado. Eis o que escrevi: “Olá pápi espero que você esteja bem eu estou e estou aprendendo a pedalar o meu avião tão rápido que logo vou estar no céu por isso fique de olho aberto e sim eu te amo Buddy”.

 

[1982]

 

Tradução de Hildegard Feist

 

O Jarro de Prata

 

 

Truman Capote

 

 

Depois da escola, eu ia trabalhar no Valhalla, uma drugstore. O estabelecimento era de propriedade do meu tio, Sr. Ed Marshall. Eu o chamo de Sr. Marshall porque todo mundo, até mesmo sua esposa, o chamava assim. Na verdade, era um bom homem.

 

A loja talvez fosse antiquada, mas era grande, escura e fresca: durante os meses do verão, não havia lugar mais agradável na cidade. Na entrada, à esquerda, ficava o balcão de revistas e tabaco, atrás do qual, na maioria das vezes, sentava-se o Sr. Marshall — um homem atarraca- do, de cara quadrada e pele rosada, com seu bigode curvo nas pontas, másculo e grisalho. Mais adiante, ficava o belo balcão das sodas. Era uma peça muito antiga, feita de um elegante mármore amarelado, suave ao toque e sem um único traço de esmalte barato. O Sr. Marshall a tinha comprado em 1910, num leilão em Nova Orleans, e sentia grande orgulho dela. Quem sentasse naqueles bancos altos, delicados, e olhas- se além do sifão, via a própria imagem refletida suavemente, como à luz de velas, numa fileira de antigos espelhos emoldurados em mogno. As mercadorias em geral ficavam expostas em armários com portas de vidro, como antiguidades, fechados com chaves de bronze. O ar estava sempre impregnado do cheiro de xarope de fruta, noz-moscada e outras delícias.

 

O Valhalla era o ponto de encontro de Wachata County, até que um certo Rufus McPherson chegou à cidade e abriu um estabelecimento semelhante, bem do outro lado da praça do fórum. Esse Rufus McPherson era um bandido; — quer dizer, roubou o comércio do meu tio. Instalou equipamentos bacanas na sua loja, como ventilador elétrico e luzes coloridas; atendia na calçada aos clientes que não desejassem descer do carro e fazia sanduíches de queijo quente. É claro que, embora alguns fregueses tenham permanecido fiéis ao Sr. Marshall, a maioria não resistiu a Rufus McPherson.

 

Durante algum tempo, o Sr. Marshall optou por ignorar o concorrente; à menção do nome McPherson, ele bufava, passava os dedos pelo bigode e fingia que não era com ele. Mas dava para ver que estava louco da vida. E cada vez mais. Então, um dia, lá por meados de outubro, entrei no Valhalla e o encontrei sentado junto do sifão, jogando dominó e bebendo vinho com o Hamurabi.

 

O Hamurabi era egípcio, uma espécie de dentista, embora não tivesse muito trabalho, já que, em geral, as pessoas por aqui têm dentes extremamente fortes, por causa de um componente na água. Boa parte do tempo, ele ficava à toa no Valhalla e era o principal companheiro do meu tio. Era um homem bonito esse Hamurabi, de pele escura e uns dois metros de altura; as senhoras da cidade trancavam as filhas com cadeado e flertavam elas próprias com ele. Sotaque de estrangeiro, não tinha nenhum, e sempre achei que era tão egípcio quanto eu.

 

De todo modo, lá estavam eles, bebendo vinho tinto italiano direta- mente de um jarro de quatro litros. Era uma visão preocupante, porque o Sr. Marshall era notório abstêmio. Portanto, claro, pensei comigo: “Ah, meu Deus, agora o Rufus McPherson deu nos nervos dele de vez”. Mas não era o caso.

 

“Tome, filho”, o Sr. Marshall me disse, “beba um copo de vinho.”

 

“Isso mesmo”, completou o Hamurabi, “ajude a gente a acabar com ele. É vinho comprado, não podemos desperdiçar nem uma gota.”

 

Bem mais tarde, quando o jarro já estava seco, o Sr. Marshall o apanhou e disse: “Muito bem, agora é que eu quero ver!”. E desapareceu no meio da tarde.

 

“Aonde ele foi?”, perguntei.

 

“Ah…”, foi tudo o que ouvi do Hamurabi, que gostava de me atormentar.

 

Meia hora depois meu tio voltou. Estava vergado e grunhia sob o peso que carregava. Depositou o jarro no balcão de mármore e deu alguns passos para trás, sorrindo e esfregando as mãos. “Bom, e aí, o que vocês acham?”

 

“Ah…”, ronronou o Hamurabi. “Minha nossa…”, disse eu.

 

Deus é testemunha de que era o mesmo jarro de vinho, mas havia uma grande e maravilhosa diferença: ele agora estava cheio até a borda de moedinhas de cinco e dez centavos, rebrilhando foscas através do vidro grosso. “Bonito, não é?”, comentou meu tio. “Pedi para encherem no banco. Não deu para enfiar moedas maiores, mas, ainda assim, tem um bocado de dinheiro aí dentro, podem acreditar.”

 

“Mas para que isso, Sr. Marshall?”, perguntei. “Quer dizer, que idéia é essa?”

 

O sorriso do Sr. Marshall expandiu-se, arreganhando os dentes. “Isto aqui é um jarro de prata, pode-se dizer…”

 

“O pote no fim do arco-íris”, atalhou o Hamurabi.

 

“… e a idéia, como diz você, é que as pessoas tentem adivinhar quanto dinheiro tem aí dentro. O cliente que fizer uma comprinha a partir de, digamos, vinte e cinco centavos vai poder arriscar um palpite. Quanto mais comprar, mais palpites poderá dar. Vou anotar todos os palpites num livro, até a véspera do Natal. Aí, quem tiver dado o palpite mais próximo da soma correta leva tudo.”

 

Solene, o Hamurabi assentiu com a cabeça. “Ele está brincando de Papai Noel — e um Papai Noel bem matreiro…”, disse. “Vou para casa, escrever um livro: O hábil assassinato de Rufus McPherson.” Para falar a verdade, o Hamurabi às vezes escreve contos e os envia para revistas. Até hoje, sempre os mandaram de volta.

 

Foi surpreendente, um verdadeiro milagre como Wachata County gostou dessa história do jarro. O próprio Valhalla não via tanto movi- mento assim desde que o chefe de estação, Tully, um pobre homem, que endoidou de vez, dizendo que tinha encontrado petróleo nos fundos da estação ferroviária, o que provocou uma invasão de aventureiros, todos vindos para tentar a sorte na cidade. Até mesmo os vagabundos do bilhar, que jamais gastavam um centavo em nada que não tivesse a ver com uísque ou mulheres, começaram a investir suas economias em milkshakes. Algumas senhoras mais velhas desaprovaram em público a iniciativa do Sr. Marshall, considerando-a uma espécie de jogo de azar, mas não criaram nenhum problema: algumas até tiveram oportunidade de, numa ou noutra ocasião, nos visitar e arriscar um palpite. As crianças da escola ficaram loucas com a coisa toda, e eu me tornei muito popular, porque elas achavam que eu sabia a resposta.

 

“Vou explicar por que isso está acontecendo”, disse o Hamurabi, acendendo um daqueles cigarros egípcios que ele comprava por correio de uma firma de Nova York. “Não é pelo motivo que se imagina; em outras palavras, não é avidez. Não. O que encanta é o mistério. O sujeito olha para as moedas todas, e o que ele pensa? Tem tanto? Não, não é assim. Ele pensa: quanto será que tem? E essa é, de fato, uma questão profunda. Entende?”

 

Quanto ao Rufus McPherson, ah, esse ficou bravo, e como! No comércio, conta-se com o Natal para faturar boa parte do lucro anual, e Rufus andava com dificuldade para encontrar clientes. Por isso, tentou imitar a idéia do jarro. Mas, pão-duro como era, encheu o dele de moedas de um centavo. Além disso, escreveu uma carta para o editor do Banner, nosso jornal semanal, dizendo que o Sr. Marshall devia ser “coberto de alcatrão e penas e enforcado, por transformar crianças pequenas e inocentes em jogadores inveterados, pondo-as no caminho da perdição!”. Dá muito bem para imaginar o tipo ridículo que era esse McPherson. Ninguém lhe dedicava outra coisa senão escárnio. Assim, lá por meados de novembro, ele só podia postar-se na calçada defronte à loja e contemplar com amargura a festança do outro lado da praça.

 

Foi por essa época que Appleseed e sua irmã apareceram pela primeira vez.

 

Ele era um estranho na cidade. Pelo menos, ninguém se lembrava de tê-lo visto antes. Dizia que morava numa fazenda um quilômetro e meio adiante de Indian Branches, contou que sua mãe pesava só trinta e quatro quilos e que tinha um irmão mais velho que, por cinqüenta centavos, tocava rabeca em casamentos. Afirmava que aquele, Appleseed, era seu único nome e que tinha doze anos de idade. Mas a irmã, Middy, contou que ele tinha oito. O cabelo era liso, de um louro escuro. O rosto, miúdo e tenso, curtido pelas intempéries, com olhos verdes ansiosos que lhe davam um aspecto sagaz de quem sabia das coisas. Era pequeno, franzino, nervoso e vestia sempre a mesma roupa: suéter vermelho e calça azul de brim, além das botas de homem adulto, que faziam clópi, clópi a cada passo que ele dava.

 

Estava chovendo quando dessa primeira aparição de Appleseed no Valhalla; os cabelos grudavam-se à cabeça como um boné, e as botas exibiam uma capa de barro vermelho das estradas de terra do campo. Middy seguiu-lhe os passos enquanto ele avançava com ares de vaqueiro em direção ao balcão das sodas, onde eu enxugava alguns copos.

 

“Ouvi dizer que vocês têm aí um garrafão cheio de dinheiro que vão dar para alguém”, disse, me olhando bem nos olhos. “E, já que estão dando mesmo, a gente ficaria muito contente de receber o dinheiro. Meu nome é Appleseed, e esta é minha irmã, Middy.”

 

Middy parecia uma menina muito triste. Era bem mais alta e parecia muito mais velha que o irmão, aquele tipo de garota que a gente costuma chamar de varapau. Tinha cabelos cor de estopa, cortados bem curtos, e uma carinha pálida de dar pena. Usava um vestidinho gasto de algodão, que acabava bem acima dos joelhos pontudos. Havia algo de errado com seus dentes, que ela tentava esconder franzindo os lábios, como uma velha.

 

“Me desculpe”, eu disse, “mas você vai ter de falar com o Sr. Marshall.”

 

E foi o que ele fez. Pude ouvir meu tio explicando o que ele precisaria fazer para ganhar o dinheiro todo. Appleseed ouvia com atenção, assentindo com a cabeça de vez em quando. Depois, voltou, postou-se bem defronte ao jarro e, tocando-o de leve com a mão, disse: “Não é uma belezinha, Middy ?”.

 

Middy respondeu: “Vão dar para a gente?”.

 

“Vão nada… Para ganhar, precisa descobrir quanto dinheiro tem aí dentro. E ainda tem de comprar alguma coisa de vinte e cinco centavos, para pelo menos poder dar um palpite.”

 

“Mas a gente não tem esse dinheiro. Onde você acha que vai conseguir vinte e cinco centavos?”

 

Appleseed franziu a testa e coçou o queixo. “Isso é o mais fácil, deixa comigo. O problema é que eu não posso só arriscar um palpite… Preciso saber.”

 

Bom, alguns dias depois, eles tornaram a aparecer. Appleseed empoleirou-se num banco junto do balcão de mármore e, confiante, pediu dois copos de água — um para ele, outro para Middy. Foi nessa ocasião que contou um pouquinho sobre sua família: “… e tem também o ‘papa’, o pai da minha mãe, que veio daqueles franceses lá da Louisiana, por isso não fala inglês direito. Meu irmão, o que toca rabeca, já foi em cana três vezes… Foi por causa dele que a gente teve de sair da Louisiana. Cortou lá um sujeito numa briga de faca, por causa de uma mulher dez anos mais velha que ele. Era loura”.

 

Middy, logo atrás dele, disse, nervosa: “Você não devia ficar falando desses assuntos particulares de família desse jeito, Appleseed”.

 

“Quietinha, Middy”, ele disse, e ela se calou. “É uma boa menina”, acrescentou ele, voltando-se para dar uns tapinhas na cabeça dela, “mas a gente não pode dar moleza. Vá olhar os livros com figurinhas, gracinha, e pare de ranger os dentes assim. O Appleseed aqui precisa pensar um pouco.”

 

“Pensar” significava ficar olhando fixo para o jarro, como se tentasse comê-lo com os olhos. Com o queixo apoiado na mão, ele ficou ali, estudando o objeto por um bom tempo, sem nem piscar. “Uma senhora na Louisiana me disse que eu podia ver coisas que os outros não vêem, porque nasci empelicado.”

 

“Está na cara que você não vai conseguir ver quanto tem aí dentro”, eu disse a ele. “Por que não pensa num número e quem sabe você acerta?”

 

“Naaaa…”, resmungou ele, “é arriscado demais. Não posso correr um risco desses, não eu. Olhe aqui, o que eu penso é que só tem um jeito certo, seguro, que é contar as moedas todas.”

 

“Contar?!”

 

“Contar o quê?”, perguntou o Hamurabi, que acabara de entrar e se acomodava agora junto ao balcão.

 

“Este garoto diz que vai contar quanto tem no jarro”, expliquei.

 

O Hamurabi dirigiu um olhar interessado para Appleseed. “Como é que você planeja fazer isso, filho?”

 

“Ora, contando, ué”, respondeu Appleseed, como se não fosse nada. Hamurabi riu. “Só se tiver olhos de raios X, filho, é o que eu posso dizer a você.”

 

“Não, que nada! Basta nascer empelicado. Foi o que uma senhora me disse na Louisiana. Ela era uma bruxa e me amava. Quando minha mãe não quis me dar para ela, ela pôs um feitiço na minha mãe, que agora pesa só trinta e quatro quilos.”

 

“Muito interessante”, comentou o Hamurabi, lançando um olhar esquisito para Appleseed.

 

Middy passeava pela loja, segurando um número de uma revista de cinema, a Screen Secrets. Apontou uma foto para Appleseed e disse: “Olha só se esta dama não é a mulher mais bonita do mundo. Está vendo, Appleseed, está vendo como são bonitos os dentes dela? Não tem nenhum fora do lugar”.

 

“Viu? Então pare de ranger os seus”, disse ele.

 

Depois que os dois foram embora, o Hamurabi pediu uma soda laranjada, que bebeu devagar, enquanto fumava um cigarro. “Você acha que esse garoto bate bem da cabeça?”, perguntou, num tom intrigado.

 

Cidades pequenas são as melhores para se passar o Natal, eu acho. Elas entram logo no clima, mudam, animam-se, enfeitiçadas pela ocasião. Na primeira semana de dezembro, as portas das casas estavam enfeitadas com coroas de flores, e as vitrines das lojas reluziam com sinos de papel vermelho e flocos de neve de mica brilhante. As crianças faziam longas caminhadas até o bosque, de onde voltavam arrastando belos pinheiros. As mulheres dedicavam-se já a confeccionar os bolos de frutas, a abrir seus potes de passas e frutas cristalizadas e as garrafas de amora-preta e vinho moscatel. Na praça do fórum, uma árvore enorme foi adornada com lantejoulas prateadas e luzes coloridas, acesas ao pôr-do-sol. No fim da tarde, podia-se ouvir o coro da igreja presbiteriana ensaiando canções natalinas para seu espetáculo anual. Pela cidade inteira, os marmeleiros-da-china floresciam a toda.

 

A única pessoa que parecia absolutamente indiferente a essa atmosfera calorosa era Appleseed. Ele seguia dedicando-se à atividade já anunciada, ou seja, a de contar o dinheiro no jarro, o que fazia com grande e persistente cuidado. Agora, vinha todo dia ao Valhalla e se concentrava naquilo, franzindo as sobrancelhas e balbuciando consigo mesmo. De início, ficamos todos fascinados, mas, passado algum tempo, aquela história começou a cansar, e ninguém mais prestava atenção nenhuma nele. De resto, ele não comprava nada; ao que parecia, não tinha conseguido arranjar os vinte e cinco centavos. Às vezes, Appleseed conversava com o Hamurabi, que se enternecera do garoto e volta e meia lhe pagava um quebra-queixo ou uma balinha de alcaçuz.

 

“Você ainda acha que ele é maluco?”, perguntei. “Não tenho muita certeza”, disse o Hamurabi.

 

“Se descobrir, eu conto. Ele não come direito. Vou levá-lo até o Café

 

Arco-Íris e pagar um churrasquinho para ele.”

 

“Ele ia preferir ganhar uma moedinha de vinte e cinco centavos.”

 

“Não. O que ele precisa é de um churrasquinho no prato. Além disso, melhor seria que ele nunca arriscasse palpite nenhum. Um garoto nervoso assim, tão diferente — eu é que não ia querer ser o responsável, se ele arriscar e perder. Deus do céu, seria de cortar o coração.”

 

Eu, de minha parte, tenho de admitir que, naquele momento, Appleseed só me parecia uma figura engraçada. O Sr. Marshall tinha pena dele, e as crianças tentavam provocá-lo, mas desistiam, porque ele se recusava a reagir. E lá ficava ele, todo santo dia, sentado no banco do balcão das sodas, com a testa franzida e os olhos sempre fixos no jarro. Era tão retraído que, às vezes, tinha-se a sensação arrepiante de que, bem, talvez ele não existisse. Mas aí, quando já se estava quase convencido disso, ele acordava e dizia algo como: “Quer saber? Espero que tenha uma daquelas moedinhas de 1913 aí dentro, com a figura do búfalo. Um conhecido viu e me disse que uma moeda dessas de 1913, com o búfalo, vale cinqüenta dólares”. Ou então: “Middy vai ser uma grande dama do cinema. Ganham uma montanha de dinheiro, essas estrelas de cinema, e aí nunca mais vamos precisar comer outra folha de couve na vida. Só que a Middy diz que não pode trabalhar no cinema se não tiver dentes bonitos”.

 

A Middy nem sempre acompanhava o irmão. Mas, quando ela não vinha, Appleseed nem parecia o mesmo: ficava tímido e ia embora logo.

 

O Hamurabi manteve a promessa e pagou para ele o tal churrasquinho no prato. “Seu Hamurabi é legal, sim”, contou Appleseed depois, “mas ele tem umas idéias esquisitas. Acha que, se morasse num lugar chamado Egito, seria rei ou coisa parecida.”

 

O Hamurabi, por sua vez, disse: “Esse garoto tem uma fé comovente. É bonito de ver. Mas estou começando a sentir desprezo por essa coisa toda”. Apontou para o jarro. “Esperança desse tipo é uma coisa cruel de se dar a uma pessoa, e fico muito chateado de ter participado disso.”

 

No Valhalla, o passatempo mais popular entre os fregueses era decidir o que iriam comprar caso ganhassem o jarro. Entre os que tomavam parte nas especulações estavam: Solomon Katz, Phoebe Jones, Carl Kuhnhardt, Puly Simmons, Addie Foxcroft, Marvin Finkle, Trudy Edwards e um homem de cor chamado Erskine Washington. E eis aqui algumas de suas escolhas: uma viagem para Birmingham, para fazer uma permanen- te lá; um piano usado; um pônei Shetland; um bracelete de ouro; uma coleção de livros dos Rover Boys, e uma apólice de seguro de vida.

 

Uma vez, o Sr. Marshall perguntou a Appleseed o que ele iria comprar. “É segredo”, foi a resposta, e não houve bisbilhotice capaz de fazê-lo contar o que seria. Concluímos que, fosse o que fosse, era alguma coisa que ele queria muito.

 

Em geral, não existe inverno sério nesta nossa região do país até final de janeiro, e, mesmo quando chega, ele é ameno e só dura pouco tempo. Mas, nesse ano sobre o qual escrevo, fomos abençoados com uma singular onda de frio na semana anterior ao Natal. Alguns falam disso até hoje, porque o frio era terrível: os canos de água congelaram; muitas pessoas tiveram de passar aqueles dias na cama, aninhadas debaixo dos acolchoados, porque não haviam se dignado ir buscar lenha suficiente para a lareira; o céu se tingiu daquele estranho cinza opaco que aparece antes das tempestades, e o sol brilhava pálido como lua minguante. O vento cortava: as folhas velhas e secas do outono caíam no chão gela- do, e a grande árvore da praça do fórum foi despida duas vezes de seus trajes natalinos. Quando a gente respirava, saíam nuvens de fumaça. Lá para os lados da fiação de seda, onde moravam os bem pobres, as famílias se juntavam no escuro, à noite, e contavam histórias para espantar o frio. No campo, os fazendeiros recobriam suas plantas delicadas com sacos de aniagem e rezavam; alguns aproveitaram o frio para matar os porcos e vender lingüiça fresca. O Sr. R. C. Judkins, o bêbado da cidade, se paramentou com um traje vermelho de gaze de algodão e foi trabalhar de Papai Noel na loja de artigos populares. Era pai de uma família grande, e todo mundo ficou feliz de vê-lo sóbrio a ponto de poder ganhar uns trocados. Houve várias reuniões sociais na igreja, e numa delas o Sr. Marshall ficou cara a cara com Rufus McPherson: trocaram palavras duras, mas nenhum soco.

 

Bom, como mencionei antes, Appleseed morava numa fazenda um quilômetro e meio para baixo de Indian Branches, o que significava uma distância de mais de quatro quilômetros da cidade — uma bela e solitária caminhada. Ainda assim, e apesar do frio, ele ia todo dia ao Valhalla e ficava até a hora de fechar, o que, com os dias mais curtos, acontecia depois do anoitecer. De vez em quando, pegava uma carona até parte do caminho com o capataz da fiação, mas isso não acontecia com muita freqüência. Parecia cansado, exibia rugas de preocupação em torno da boca. Estava sempre com muito frio e tremia um bocado. Não creio que vestisse camiseta e ceroula por baixo do suéter vermelho e da calça de brim, para se aquecer.

 

De repente, três dias antes do Natal, e absolutamente do nada, Appleseed anunciou: “Bom, acabei. Quer dizer, já sei quanto dinheiro tem dentro do garrafão”. Afirmou isso com certeza tão grave e solene que era difícil duvidar do que acabara de dizer.

 

“Ora, mas espere aí, filho”, disse o Hamurabi, também presente. “Não é possível que você saiba uma coisa dessas. É ruim pensar assim: você só vai se decepcionar.”

 

“O senhor não precisa me passar um sermão, seu Hamurabi. Eu sei o que estou fazendo. Uma senhora na Louisiana me disse que…”

 

“Sei, sei, eu já sei… Mas você precisa esquecer isso. Se eu fosse você, iria para casa, ficaria quietinho e esqueceria essa história do maldito jarro.”

 

“Meu irmão vai tocar rabeca num casamento em Cherokee esta noite, e vai me dar os vinte e cinco centavos”, teimou o Appleseed. “Amanhã, dou meu palpite.”

 

Assim, no dia seguinte, me senti meio alvoroçado quando Appleseed e Middy chegaram. E, claro, ele trazia consigo os vinte e cinco centavos: por segurança, amarrados na ponta de um grande lenço vermelho.

 

Os dois caminharam de mãos dadas por entre os armários de vidro, confabulando aos sussurros sobre o que comprar. Por fim, decidiram-se por um vidrinho de uma colônia de gardênia, do tamanho de um dedal, que Middy abriu de pronto, despejando parte do conteúdo nos cabelos. “Estou cheirosa como… Virgem Maria, nunca cheirei tão bem assim. Tome, Appleseed, me deixe derramar um pouquinho no seu cabelo.” Mas ele não quis saber.

 

O Sr. Marshall apanhou o livro em que anotava os palpites, enquanto Appleseed se dirigia para perto do balcão de mármore, onde tomou o jarro nas palmas das mãos e o acariciou com gentileza. Seus olhos brilhavam, as maçãs do rosto coraram de excitação. Diversas pessoas que se encontravam no estabelecimento àquela hora se juntaram para observar. Middy, mais afastada, coçava a perna e cheirava sua colônia, quietinha. O Hamurabi não estava.

 

O Sr. Marshall lambeu a ponta do lápis e sorriu. “E então, filho, o que você me diz?”

 

Appleseed respirou fundo. “Setenta e sete dólares e trinta e cinco centavos”, respondeu, de um jorro.

 

Ao escolher um número tão quebrado, decerto demonstrava originalidade, já que o palpite mais comum das pessoas era um número redondo. Solene, o Sr. Marshall repetiu a soma ao anotá-la.

 

“Quando vou saber se ganhei?”

 

“Na véspera do Natal”, alguém disse.

 

“É amanhã, então?”

 

“Claro, isso mesmo”, confirmou o Sr. Marshall, nada surpreso.

 

“Esteja aqui às quatro.”

 

Durante a noite, os termômetros caíram ainda mais, e, perto do amanhecer, despencou um daqueles temporais rápidos, como os do verão, de tal modo que o dia nasceu claro e gélido. A cidade parecia um postal retratando uma cena do Norte, com pingentes de gelo de um branco resplandecente nas árvores e os desenhos floridos que o frio pinta em todas as janelas. O Sr. R. C. Judkins levantou cedo, e, sem nenhum motivo aparente, percorria as ruas badalando um daqueles sinos de chamar as pessoas para o jantar; parava aqui e ali para tomar um trago de uísque da garrafinha de meio litro que levava no bolso da calça. Como não soprava vento algum, a fumaça das chaminés subia preguiçosa e retilínea em direção ao céu calmo e gélido. No meio da manhã, ouvia-se já o coro presbiteriano em plena atividade, e os garotos da cidade (usando más- caras de horror, como no Halloween) corriam um no encalço do outro em torno da praça, fazendo um tremendo rebuliço.

 

O Hamurabi apareceu ao meio-dia, para ajudar a preparar o Valhalla. Trouxe consigo um belo saco de tangerinas, que, juntos, comemos até a última, jogando as cascas numa gorda estufa situada bem no meio do salão (presente do Sr. Marshall a si mesmo). Então, meu tio retirou o jarro do balcão de mármore, lustrou-o e o acomodou sobre uma mesa posicionada num ponto privilegiado. Depois disso, ele pouco ajudou, porque sentou numa cadeira e passou um bom tempo atando e reatando uma fita adesiva verde em torno do jarro. Assim sendo, o Hamurabi e eu tivemos de fazer o resto do trabalho sozinhos: varremos o chão, lavamos os espelhos, espanamos os armários de vidro e estendemos bandeirolas verdes e vermelhas de papel crepom de uma parede a outra. Quando terminamos, estava tudo muito bonito e elegante.

 

O Hamurabi, porém, lançou um olhar tristonho para nossa obra, dizendo: “Bom, agora acho melhor eu ir andando”.

 

“Mas você não vai ficar?”, perguntou, chocado, o Sr. Marshall.

 

“Ah, não, não vou, não”, respondeu o Hamurabi, balançando lentamente a cabeça. “Não quero ver o rosto daquele garoto. É Natal, e eu quero muita alegria. E alegria é o que não vou ter com uma coisa dessas na consciência. Ora, eu nem conseguiria dormir.”

 

“Você é quem sabe”, disse o Sr. Marshall. Deu de ombros, mas dava para ver que tinha ficado magoado. “A vida é assim mesmo. Além disso, quem é que sabe? Ele pode até ganhar.”

 

O Hamurabi suspirou, sombrio. “Qual foi o palpite dele?” “Setenta e sete dólares e trinta e cinco centavos”, eu disse.

 

“Ora, pois eu pergunto: não é uma coisa fantástica?”, disse ele. De- pois, sentou-se numa cadeira ao lado do Sr. Marshall, cruzou as pernas e acendeu um cigarro. “Se você tem aqueles chocolatinhos Baby Ruths aí, acho que vou querer um. Estou com a boca azeda.”

 

A tarde avançava, e nós três ficamos sentados ali, em torno da mesa, sentindo uma profunda tristeza. Quase não trocamos nenhuma palavra, e, como as crianças haviam abandonado a praça, o único som que se ouvia era o do relógio batendo as horas no campanário do fórum. O Valhalla estava fechado, mas as pessoas continuavam passando e espiando pela janela. Às três horas, o Sr. Marshall me mandou destrancar a porta.

 

Em vinte minutos, o lugar estava superlotado; todos vestiam sua melhor roupa dominical, e o ar tinha um cheiro doce, porque a maioria das meninas da fiação se perfumara com essência de baunilha. Os presentes se espremiam ao longo das paredes, empoleiravam-se junto do balcão de mármore, enfiavam-se onde pudessem; logo a multidão tinha se esparramado até a calçada e avançado para a rua. Na praça, enfileiravam- se as carroças puxadas por animais e os Fords T que haviam trazido os fazendeiros e suas famílias para a cidade. As pessoas riam, gritavam, gracejavam um bocado — ofendidas, muitas senhoras reclamaram dos palavrões e dos modos rudes e dos empurrões dos mais jovens, mas ninguém foi embora. Na entrada lateral, formara-se um grupo de pessoas de cor, e eram os que mais se divertiam. Todos aproveitavam a ocasião tão propícia. Normalmente, é tão quieto aqui: quase nunca acontece nada. Posso dizer com segurança que quase toda Wachata County com- parecera, à exceção dos aleijados e de Rufus McPherson. Olhei em torno à procura de Appleseed, mas não o vi em lugar nenhum.

 

O Sr. Marshall pigarreou ostensivamente e bateu palmas para chamar a atenção de todos. Quando as coisas se acalmaram e o clima de tensão era satisfatório, ele ergueu a voz feito um leiloeiro e proclamou: “Muito bem,escutem todos! Neste envelope que vocês vêem na minha mão” — ele segurava o envelope pardo acima da cabeça —, “bem, nele está a resposta, que até este momento ninguém conhece, a não ser Deus e o banco, ha, ha, ha. E neste livro aqui” — ele ergueu o livro com a outra mão — “anotei os palpites de todos vocês. Alguma pergunta?”. Todos ficaram em silêncio. “Ótimo. Agora, preciso de um voluntário…”

 

Nenhuma criatura se moveu sequer um centímetro: era como se uma terrível timidez tivesse tomado conta da multidão, e mesmo aqueles que normalmente gostavam de aparecer ficaram olhando para os pés, envergonhados. Então, uma voz — a de Appleseed — gritou: “Me deixem passar… Dá licença, madame, por favor”. Trotando atrás dele, que avançava, vinham Middy e um sujeito magricela e sonolento, que só podia ser o ir- mão tocador de rabeca. Appleseed vestia a roupa de sempre, mas tinha esfregado o rosto até deixá-lo rosado de tão limpo, engraxara as botas e penteara os cabelos bem para trás, rente à cabeça, com brilhantina. “Chegamos na hora certa?”, resfolegou.

 

E o Sr. Marshall emendou: “Então você quer ser nosso voluntário?”.

 

Appleseed pareceu perplexo, mas logo fez que sim, assentindo com todo o vigor.

 

“Alguém tem alguma objeção a que seja este jovem?”

 

O silêncio seguiu reinando, sepulcral. O Sr. Marshall entregou, então, o envelope a Appleseed, que o recebeu com tranqüilidade. Em seguida, o garoto mastigou o lábio inferior por um instante, estudando o envelope antes de rasgá-lo.

 

Em toda aquela assembléia não se ouvia um único som, a não ser um tossido ocasional ou o suave tilintar do tal sino do Sr. R. C. Judkins. O Hamurabi estava encostado no balcão de mármore, junto do sifão, olhando para o teto; Middy contemplava o nada por sobre o ombro do irmão, e, quando ele começou a rasgar o envelope, ela deixou escapar um minúsculo arquejo de aflição.

 

Appleseed retirou um pedacinho de papel cor-de-rosa e, segurando-o como se se tratasse de coisa muito frágil, balbuciou para si mesmo o que estava escrito ali. De repente, seu rosto empalideceu, e lágrimas começaram a cintilar em seus olhos.

 

“Ei, diga lá, garoto!”, alguém gritou.

 

O Hamurabi avançou e praticamente arrancou dele o pedaço de papel. Depois, pigarreou, e ia começar a ler, quando sua expressão mudou de um jeito muito cômico. “Nossa Senhora Mãe de Deus…”, ele disse.

 

“Mais alto! Mais alto!”, um coro raivoso exigiu.

 

“Cambada de vigaristas!”, gritou o Sr. R. C. Judkins, que, a essa altura, já enchera a cara. “Isto está me cheirando a tramóia. E tramóia das boas!” Uma tempestade de vaias e assobios rasgou o ar.

 

O irmão do Appleseed rodopiou nos calcanhares, e chacoalhava o punho.“Cala a boca! Cala a boca todo mundo, antes que eu comece a bater cabeça contra cabeça e a distribuir galos do tamanho de um melão, estão me ouvindo?”

 

“Cidadãos…”, apelou o prefeito Mawes, “cidadãos, é Natal… É Natal, cidadãos…”

 

Foi aí que o Sr. Marshall subiu numa cadeira e começou a bater palmas e pés, até restabelecer um mínimo de ordem. Conviria assinalar aqui que, segundo descobrimos mais tarde, o Sr. Rufus McPherson pagara ao Sr. R. C. Judkins para que desse início à baderna. De todo modo, uma vez contida a explosão, quem estava de posse do pedacinho de papel? Eu mesmo… Sei lá como.

 

Sem pensar, gritei: “Setenta e sete dólares e trinta e cinco centavos!”. Claro, graças à agitação toda, nem percebi de imediato o que aquilo significava; era só um número. Então, o irmão do Appleseed soltou seu potente grito de alegria, e eu compreendi. O nome do vencedor se espalhou com rapidez, e os sussurros murmurados de admiração soavam feito um aguaceiro.

 

O Appleseed era uma visão de dar dó. Chorava como se tivesse sido ferido de morte, mas, quando o Hamurabi o ergueu nos ombros, para que a multidão pudesse dar uma olhadinha, ele enxugou as lágrimas nos punhos do suéter e começou a sorrir. O Sr. R. C. Judkins gritou: “Trapaça! Pura trapaça!”, mas suas palavras foram abafadas por uma ensurdecedora salva de palmas.

 

Middy agarrou meu braço. “Meus dentes!”, guinchou. “Agora vou poder ter meus dentes!”

 

“Dentes?”, perguntei, meio atordoado.

 

“Dentes postiços”, ela disse. “É o que nós vamos comprar com o dinheiro: lindos dentes postiços branquinhos.”

 

Naquele momento, porém, meu único interesse era saber como Appleseed tinha descoberto o número. “Ei, me conta”, supliquei a ela, “diz para mim como, em nome de Deus, ele sabia que eram exatos setenta e sete dólares e trinta e cinco centavos.”

 

E a Middy me dirigiu aquele olhar. “Ora, eu pensei que você já soubesse”, disse, com toda a seriedade. “Ele contou as moedas.”

 

“Está bem, mas como, contou como?” “Minha nossa, você não sabe nem contar?” “E foi só isso que ele fez?”

 

“Bom”, disse ela, depois de pensar por um instante, “ele rezou um pouquinho também.” Então, fez menção de se afastar, mas voltou-se e completou: “Além disso, ele nasceu empelicado”.

 

E foi o mais próximo que alguém jamais conseguiu chegar de resolver o mistério. Daí em diante, se perguntasse a Appleseed: “Como assim?”, ele abria um estranho sorriso e mudava de assunto. Muitos anos depois, ele e a família se mudaram para algum lugar da Flórida, e nunca mais se ouviu falar deles.

 

Em nossa cidade, contudo, a lenda do Appleseed segue firme e forte. Até morrer, um ano atrás, em abril passado, o Sr. Marshall era convidado todo Natal a contar a história do Appleseed nas aulas de leitura da Bíblia dos batistas. Uma vez, o Hamurabi datilografou um relato e o enviou para diversas revistas. Nunca publicaram. A resposta de um editor dizia que, “se a menina tivesse mesmo se tornado artista de cinema, aí a história teria algum interesse”. Mas, se não foi isso que aconteceu, por que mentir?

[1945] Tradução de Sergio Tellaroli

 

 

A Estória de como o Sr. Marshall Salvou seu Negócio

 

Agrupamento de Cartas

 

 

Carta 1

 

Alô Catalina,

 

São Paulo, 15 de novembro de 2015.

 

Entrei na internet e pesquisei um pouco. Hamurabi foi rei da Babilônia entre 1792 a.C. a 1750 a.C. Ele criou um conjunto de leis, chamado de código de Hamurabi. O código foi talhado em uma rocha e parece que são as primeiras normas de conduta que o homem colocou por escrito.

 

Interessante a semelhança entre a deusa da justiça, que ajuda a Telêmaco, e o personagem Hamurabi, que ajuda o menino no conto de Truman Capote.

 

Abraço,

 

Myriam

 

Carta 2

 

Jundiaí, 18 de Novembro de 2015

 

Oi, Catalina.

 

Como vai? O conto do Jarro foi mesmo demais! Continua me inquietando. Ainda me pego com aquele conto passeando dentro de mim. E hoje acho que, finalmente, entendi por que. Ele te toca diante da possibilidade de todos sermos Papai Noel. E, em mim, ficou a questão do que fez com que o dono do bar resolvesse ser o Papai Noel daquele menino.

 

Até que ponto o fato dele se considerar empelicado, o colocou numa atitude mental que afetou o dono do bar? A física quântica não afirma, e a neurolinguística confirma, que as palavras e atitudes criam a realida- de?

 

Depois desses dias todos, de pensa que pensa, pensa que pensa, a minha conclusão é que como o menino nem um minuto duvidava da sua sorte, já que era empelicado, e era muito persistente,  contando as moedas diariamente, acabou acreditando e agindo de forma que determinou o fim feliz da história. Como isso influenciou o dono do bar? Isso não sei. Mas talvez tenha razão quem escreveu que “The difference between the possible and the impossible is a willing heart”.

 

Impossível acertar a quantidade de moedas mas, aquele menino empelicado e determinado, não duvidou, nem um minuto, no seu coração que iria ganhar. Isso foi tão forte que fez com q o dono do bar resolvesse dar uma de Papai Noel anônimo. Será que na vida é assim mesmo?

 

E, de alguma forma isso tem a ver com este momento de trazer os Círculos de Leitura pra cá. Quando estava saindo da casinha aquele dia, você me disse, pense no Projeto em Jundiaí que o dinheiro vem. Esse conto, nesse momento, tem um recado especial pra mim, de acreditar, sem duvidar, que vamos ganhar as moedas pra por nosso sonho em prática por aqui. Agora é aguardar nosso Papai Noel! Ele pode ser qualquer um! Muito bom ter conhecido vocês e poder ter participado dessa leitura.

 

Um abraço, Ana

 

Carta 3

 

São Paulo, 19 de Novembro de 2015

 

Bom dia!

 

Como é lindo este processo. A Ana escreveu que o conto ficou “passeando dentro dela”. Eu penso que esta seja a etapa anterior a precipitação dos nossos desejos da dimensão espiritual para a dimensão do concreto. E é este movimento que “captura” o “Papai Noel”! A mágica da vida…

 

Catalina, grata por compartilhar este depoimento que me fez confirmar esta convicção que sempre trago comigo.

 

Beijos, Adriana.

 

Carta 4

 

São Paulo, 20 de novembro de 2015

 

Querida Ana,

 

Após lermos com carinho suas reflexões sobre o Conto “O Jarro”, Catalina e eu tivemos uma boa conversa e gostaríamos de compartilhá-la com você.

 

O conto inicia-se com um conflito envolvendo os negócios do Sr. Marshall, ameaçado por um concorrente, que passa a atrair toda sua clientela. Movido pela necessidade de sobrevivência, se vê obrigado a criar uma solução para recuperar seu público, pensa em uma estratégia sedutora: transformar um simples jarro de vidro em um jarro repleto de moedas de prata. Os clientes que consumissem algo em seu estabeleci- mento, poderiam dar um palpite acerca do valor contido dentro do jarro. Aquele que mais se aproximasse do valor, levaria toda a quantia consigo, na véspera de Natal.

 

De acordo com Hamurabi: “O Senhor Marshall está brincando de Papai Noel – e um Papai Noel bem matreiro”. Por conta de seus problemas financeiros, resolveu apelar para o mágico, para a fantasia, e funcionou: “a magia por trás do jarro moveu toda WachataCounty.” O próprio Sr. Marshall não compreendia como havia gerado tanta transformação em seu negócio através do que, para ele, seria uma simples aposta. Hamurabi esclarece: “não é pelo motivo que você imagina, ou, em outras palavras, não é avidez. Não. O que encanta é o mistério. O sujeito olha para as moedas todas, e o que ele pensa? Tem tanto? Não, não é assim. Ele pensa: quanto será que tem? E essa é, de fato, uma questão profunda. Entende?”.

 

Eis que nos deparamos com a figura de Appleseed, menino simples e determinado a descobrir o valor contido no jarro. Todos os dias, Appleseed andava quatro horas para chegar ao bar e, na sua imaginação, contava uma por uma as moedas de prata. Hamurabi, maravilhado com a convicção do menino, quis saber de onde vinha tanta certeza de que poderia fazer o que a todos parecia impossível. Appleseed respondeu: “Basta nascer empelicado. Foi o que uma senhora me disse na Louisiana. Ela era uma bruxa e me amava. Quando minha mãe não quis me dar para ela, ela pôs um feitiço na minha mãe, que agora pesa só trinta e quatro quilos”.

 

Feitas as apostas, aproximava-se o dia da festa de véspera de Natal, dia em que seria anunciado o grande vencedor. Hamurabi, ao pensar na tristeza do garoto, ficou indignado: “não quero ver o rosto daquele garoto. É Natal, e eu quero muita alegria. E alegria é o que não vou ter com uma coisa dessas na consciência. Ora, eu nem conseguiria dormir”, disse ele ao Sr. Marshall. Aquelas palavras envolveram de luz a consciência do velho comerciante, impulsionando-o a agir eticamente: o Código de Hamurabi foi adotado.

 

Como você disse Ana, as palavras e atitudes criam uma realidade. A realidade torna-se, portanto, uma teia de ações que se desencadeiam ganhando vida própria.

 

A dupla, Sr. Marshall e Hamurabi, é essencial para o desfecho da história. No início, a ideia do Sr. Marshall de criar o jarro de prata foi uma estratégia de sobrevivência para seus negócios, entretanto, sem ter consciência da potência de seus atos, Marshall, ao brincar de Papai Noel, despertou o encanto de Appleseed, que via naquele jarro uma oportunidade real para a realização de um sonho. Hamurabi, por sua vez, sendo dotado de um intenso senso de justiça, influenciou Marshall a tornar-se Papai Noel daquele garoto.

 

Ler esse conto nos fez pensar sobre a importância de manter acesa a chama da magia, pois se Hamurabi conseguiu despertar o Papai Noel do Senhor Marshall, até então um homem focado apenas em seu negócios, e conseguiu preservar a crença de Appleseed do quanto ele era especial, ele também pode preservar a nossa.

 

Este conto mostra que todos nós podemos ser Papai Noel se temos amigos que se guiam por um Código de Ética e jovens que acreditem que podem contar as moedas de um jarro de prata.

 

Um abraço, Catalina e Helena

 

Carta 5

 

São Paulo, 24 de Novembro de 2015

 

Catalina,

 

Apenas em relação à ética  me ocorreu a complexidade das decisões do ponto de vista ético , fazer o bem não é a mesma coisa que evitar o mal . Assim à ética seria um limite para alcançar o bem ou evitar o mal.

 

Nem toda ausência de mal é o bem, né? Seria como uma linha que já está estabelecida para o bem ou na ausência dele talvez o mal mas seria preciso ir além dessa linha para um nível que chamam de religioso pra poder responder ao que ainda não sabemos e ir aonde ainda não fomos, nosso devir?

 

Pra isso teríamos que fazer escolhas meio às cegas, arriscar: “que eu entoe o magnificar sobre o que não sabe nem vê” da Clarice.

 

Quero acompanhar essa questão. Obrigada por enviá-la.

 

Beijo, Cássia Fellet

 

P.S.: E tem ainda a auto percepção pra acompanhar o ato ético! Contribuição para o diálogo:

 

“Em relação a todos os atos de iniciativa e de criação existe uma verdade fundamental cujo desconhecimento mata inúmeras ideias e planos esplêndidos, a de que, no momento em que nos comprometemos definitivamente a Providência move-se também.

 

Toda uma corrente de acontecimentos brota da decisão fazendo surgir a nosso favor toda a sorte de incidentes, encontros e assistência material que nenhum homem sonharia que viesse em sua direção.

 

O que quer que você possa fazer, ou sonhe que o possa, faça-o. Coragem contém genialidade, poder e magia.

 

Comece-o AGORA.” (Goethe)

 

Carta 6

 

Jundiaí, 24 de Novembro de 2015

 

Olá Catalina e Aline,

 

Ah esse conto! Continuei pensando nas reflexões que me enviaram e que, a princípio concordei. Mas a questão da ética ficou martelando na minha cabeça.

 

Se realmente o Sr. Marshall “preparou” o resultado ele não foi ético, já que favoreceu um em detrimento de todos os outros, não é?

 

Foi humanitário, bom, generoso, foi o Papai Noel de Appleseed, mas ético não. Nem justo, se levarmos em consideração todos os outros clientes. E aí?

 

Beijos,

 

Ana

 

Carta 7

 

São Paulo, 24 de Novembro de 2015

 

Oi Catalina,

 

Interessantíssima a questão levantada pela Ana! Não me sinto a apta a respondê-la, mas fiquei com vontade de palpitar.

 

O que vou dizer tem mais a ver com o que eu sinto do que com o que eu sei, ou seja, menos teórico do que empírico. Isso porque, se eu me apegar ao conceito estabelecido de ética etc., não terei como concordar com a ação do comerciante. Mas eu concordo com o que ele suposta- mente fez e acho (achismo total) que ele foi mais ético e justo do que se tivesse seguido os preceitos conceituais dessas palavras, assim, em estado de dicionário, sabe?

 

Isso porque é difícil pensar em aplicar uma mesma sentença para réus em condições totalmente desiguais. Essa aplicação, para mim, já nasce de uma injustiça.

 

Ali, o que parecia estar em jogo era um sonho, única possibilidade daquele menino e sua família continuarem acreditando que a vida podia também ser para eles. Tudo lhes foi tirado. O dinheiro talvez fosse importante… para deixar os dentes da irmã bonitos. Mas não obstante a necessidade, acredito que o que menos importava era o valor material, embora aquelas crianças fossem de fato materialmente muito carentes.

 

Para ser sincera, desconfio um pouco da abstração conceitual e, embora tenhamos ainda muito medo do relativismo, acredito mais quando ele é explicito do que travestido por palavras que denotam precisão in- condicional.

 

Sim, eu sei que isso não foi uma resposta, mas – quem sabe – um início de conversa…

 

Ah, e voltando à interessante história do Hamurabi, comentada pela Miriam,  ele é que escreveu as Leis, e as leis, salvo engano, surgem descritivas e só depois passam à prescrição. Quem sabe aí não possamos ter um convite a uma nova concepção do que seja ser ético e justo…

 

Seguimos conversando.

 

Um abraço, Márcia

 

Carta 8

 

São Paulo, 24 de novembro de 2015

 

Ana,

 

O conto termina com o sobrinho do Sr. Marshall, intrigado e perguntando para a irmã como Appleseed tinha descoberto o número exato de moedas que haviam no jarro. Ele suplicou e disse a ela: “(…) como em nome de Deus, ele sabia que eram exatos setenta e sete dólares e 35 centavos”?

 

Middy muito tranquilamente fala que Appleseed tinha contado, ele sabia contar, e que ele tinha rezado um pouco, mas que também ele era empelicado, era especial.

 

Como ele conseguiu, acabou sendo um mistério, mas o que ficou de concreto é que essa história continua sendo contada pelo Sr. Marshall todos os anos na leitura da bíblia, na época do Natal.

 

A história deixa em aberto se foi um milagre, e que milagre foi esse. Dependendo do grupo, do público nós falamos ou não sobre o Código de Hamurabi, o que seria a lei ou a justiça.

 

No meu trabalho com professores, escuto muitos dizerem que às vezes dão nota maior ao aluno do que ele realmente tirou, porque sentem que eles se esforçaram, e querem com isso estimulá-los. E não vemos nada de desonesto nisso, muito pelo contrário.

 

Me envie seu telefone, para que possamos conversar um pouco mais sobre esse tema.

 

Abraço,

 

Catalina.

 

Carta 9

 

São Paulo, 25 de Novembro de 2015

 

Querida Ana,

 

Anexo as reflexões da Márcia, estou adorando esse diálogo, penso que ele é muito necessário por tratar da ética, justiça, fé e generosidade.

 

Capote, ao narrar que Marshall passou o dia inteiro amarrando uma fita no jarro, deixa um mistério no ar. Uma frase do conto importante: “Esse garoto tem uma fé comovente, disse Hamurabi. É bonito de ver… Esperança desse tipo é uma coisa cruel de se dar a uma pessoa, e fico muito chateado de ter participado disso.” Na estória, um simples jarro de vidro se transformou em um objeto mágico, e essa estória vai continuar a ser contada, recontada, para nos fazer pensar e nos aproximar uns dos outros de uma outra forma.

 

Vamos seguir conversando,

 

Abraço, Catalina e Lindemberg

 

Carta 10

 

São Paulo, 25 de novembro de 2015.

 

Querida Ana,

 

Em suas palavras, “a física quântica afirma e a neolinguística confirma que as palavras e atitudes criam a realidade”: o sentir é mágico, o poder das palavras, nascido em tempos primevos, afluiu no tempo presente, o menino conseguiu fazer os adultos voltarem ao estágio inicial, ao tempo mítico dos nossos ancestrais, quando tudo era possível. Essa história narra o poder do mito: Será verdade? Será que aconteceu como foi contada? O simples acreditar, a crença de que a história aconteceu de verdade, as palavras, as atitudes e as histórias criaram, de fato, a realidade.

 

Sr. Marshall, velho comerciante, inicia o conto brincando com o mágico por meio de uma estratégia de vendas, sem sequer imaginar que, no natal, se tornaria, de fato, um Papai Noel. Foi com a ajuda de Hamurabi que Marshall compreendeu que toda aquela mobilização não se tratava apenas de uma aposta para adivinhar a quantidade de dinheiro que havia no jarro, pois, dentre o grande número de apostadores, havia Appleseed, menino empelicado, carregado de certezas de seu espírito merecedor.

 

Foi somente Appleseed que vislumbrou algo além da possibilidade de uma aposta (arriscar), estava ele carregado da necessidade do “saber” a quantidade de moedas que havia no jarro. Aqui, o “saber” adquire a dimensão das coisas profundas e menos evidentes, muito além de arriscar um palpite ou contar com a própria sorte no êxito de uma resposta, o saber passa a ser uma procura valorosamente conquistada. Compenetra- do na procura desse “saber”, Appleseed aproxima-se da intimidade das coisas, enxergando-as com empatia, o seu olhar é conduzido ao alcance da dimensão das coisas não visíveis, que só se revelam frente a um olhar atento, cuidadoso e sensível. Alcançada essa dimensão, o sonho realiza- se, os mistérios se revelam e somos capazes de nos aproximarmos de nós mesmos. Esse sentimento também foi vivenciado pelo Sr. Marshall, quando passou o dia enfeitando, lustrando o jarro, atando e reatando a fita verde, como um rito de preparação para a noite do sorteio.

 

Appleseed nasceu empelicado*, foi amado pela bruxa e pela mãe, e, no natal, encontrou o amor paterno distribuído nas figuras de Sr. Marshall e Hamurabi. Diante da confiança, tecida pela dupla (Hamurabi e Marshall) percorreu, antes de qualquer coisa, um único caminho, o de “ser” amado. Quem sente que foi amado pela mãe, encontra amor do mundo. Somente por ter sido amado, conseguiria dar um destino nobre ao prêmio que almejava ganhar, dando para sua irmã dentes perfeitos.

 

Quem venceu essa aposta foi o tempo mítico, um tempo anterior a tudo, onde as coisas carecem menos de explicações, porque são venci- das por crenças ancestrais, não escritas pelos homens, mas que terão sempre o poder de encantar, transformar e premiar os que acreditam verdadeiramente com o coração.

 

O comerciante, procurando resolver uma questão financeira prática, criou uma estratégia para salvar seu negócio decadente, que ele passa a contar em todas as comemorações de Natal dali para frente. Essa história ganha vida própria, e se torna um mito, no qual ele é um dos protagonistas.

 

“Foi assim Glauco que o mito se salvou e pode lhe salvar se você lhe der credito”. (Platão, A Republica).

 

Um abraço, Cláudia, Catalina e Aline.

 

* Diz-se de criança que nasce com a cabeça envolta no âmnio ma- terno [Fato considerado pelo povo como sinal de proteção especial]; adjetivo substantivo masculino, p.ext., que ou quem tem sorte, é feliz, ditoso.

 

Carta 11

 

Jundiaí, 25 de Novembro de 2015

 

Oi Catalina, oi Márcia!

 

Catalina, você tem razão, a escrita e a fala passam por canais diferentes.

 

Estou adorando poder compartilhar minhas inquietações com vocês.

 

Quando a gente vai se encontrar de novo?

 

Tem algum conto que toque no tema justiça? Outro contexto seria ótimo pra testarmos nossas hipóteses. O que acham?

 

Um abraço, Ana

 

PS.: recebi os contos, agradecida.

 

Carta 12

 

São Paulo, 09 de dezembro de 2015.

 

Querida Catalina,

 

Após fazer a leitura do conto “O Jarro de Prata” e do conjunto de cartas que você me enviou, também me arrisco a fazer algumas observações.

 

O narrador nos conta o que presenciou na infância, quando trabalhava no pequeno comércio do seu tio. Faz um relato de suas memórias, exatamente como vivenciou os acontecimentos, sem emitir qualquer julgamento de valor.

 

Nesse relato Hamurabi e Appelseed são as duas personagens que predominam. O egípcio Hamurabi, que fazia as vezes de dentista na comunidade, era o melhor amigo do Sr. Marshall e permanecia boa par- te do tempo no pequeno comércio. O seu nome estabelece uma relação direta com o rei Hamurabi da Babilônia, responsável pelas leis contidas no código que recebeu seu nome. No conto, Hamurabi é o responsável por despertar no Sr. Marshall um novo olhar, uma outra conduta, um outro comportamento, que poderíamos até chamar de “código” da alteridade. A sua ação e palavras sobre Appelseed nos apresentam o outro, isto é, revelam o outro, quem é o outro, onde está o outro, o que posso fazer pelo outro, como o outro me modifica e como eu posso modificar o outro.

 

Essas palavras têm grande importância no desenrolar das ações que acontecem no conto. Assim, antes de Appelseed e sua irmã surgirem na estória, Hamurabi explica que todos aqueles que apostavam 25 centavos, não o faziam pelo ganho, mas sim pela sua participação no mistério. Hamurabi, sem se dar conta, pois essa não era a sua intenção,  tenha talvez permitido ao Sr. Marshall agir como Papai Noel, sem deixar de ser ético, pois o único dos apostadores que realmente precisava das moedas de prata era o menino Appelseed, os outros apenas desejavam participar do mistério, assim como nós que estamos lendo e dialogando sobre o conto.

 

Abraço, Antonio Gouveia

 

Carta 13

 

São Paulo, 09 de dezembro de 2015.

 

Querido Antonio:

 

Assim como ocorreu com o Sr. Marshall, que todos os anos era convocado a contar essa história na época de Natal, algo semelhante aconteceu conosco, que temos lido, pensado e escrito sobre o conto. E como diz a Ana, ele continua passeando dentro de nós. Que bom que a leitura também o mobilizou a tomar parte nesse diálogo.

 

O que você escreveu sobre o “Código de Alteridade” resume a ideia principal da história:  a nossa responsabilidade perante o outro ser humano que está perto de nós, com seus sonhos, suas esperanças e suas crenças. O conto leva à reflexão do quanto a nossa atitude é importante na vida do outro.

 

Começamos nosso diálogo com o Código de Hamurabi e você, Antonio, recuperou para nós o código mais importante, o da Alteridade. Pois é no olhar do outro que descobrimos quem somos. E sem nos dar conta, chegamos até Levinas, que tanto escreveu sobre o tema.

 

E, sabendo como os bons encontros nos potencializam, quem irá duvidar que na loteria promovida pelo  Sr. Marshall todos saíram ganhando?

 

Obrigada pela preciosa contribuição.

 

Um abraço, Catalina e Cidinha

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