Confira nossas reflexões sobre o conto “O afogado mais bonito do mundo”, de Gabriel García Marquez.

O Afogado Mais Bonito do Mundo

Apresentação e Reflexões

 

No conto “O Afogado Mais Bonito do Mundo”, Gabriel García Marquez dialoga com a Odisséia de Homero. Quando Ulisses chega à terra dos feácios, é muito bem recebido. Conta o que havia vivido, aventuras e perigos enfrentados. O Afogado, levado pelas correntezas à praia de uma pequenina aldeia (que ainda nem possuía nome), remete à lembrança de um passado grandioso.

O acontecimento desperta a curiosidade dos moradores em saber quem ele era, de onde vinha. Como não sabem, inventam, criando uma história para o novo visitante. Dão-lhe um nome que acaba se tornando o nome do próprio povoado.

Quando um “volume escuro e silencioso” chega à praia do povoado, as crianças pensam ser uma baleia e passam a tarde brincando de enterrar e desenterrar o corpo, até que um adulto os vê e dá o alarme. Ao retirar o mato que cobria o volume, as mães descobrem o Afogado.

Era um morto muito pesado, diferente dos homens do povoado, sendo necessário muitos deles para carregá-lo: “Os homens que o carregaram a casa mais próxima notaram que pesava mais que todos os mortos conhecidos, quase tanto quanto um cavalo, e disseram que talvez ti­vesse estado muito tempo à deriva e a água penetrara-­lhe nos ossos. Quando o estenderam no chão, viram que era muito maior que todos os homens, pois mal cabia na casa, mas pensaram que talvez a capacidade de continuar crescendo depois da morte estivesse na natureza de certos afogados. (…) Enquanto os homens verificaram se não faltava ninguém nos povoados vizinhos, as mulheres ficaram cuidando do afogado. Tiraram-lhe o lodo com escovas de esparto, desembaraçam-lhe os cabelos dos abrolhos submarinos e rasparam a rêmora (tipo de peixe) com ferros de descamar peixes.”

Se em um primeiro momento as mulheres se surpreendem com o tamanho e a beleza do afogado, depois, durante o tempo que cuidam dele, imaginam como a vida do povoado seria diferente se ele vivesse ali. “Andavam perdidas por esses labirintos de fantasia, quando a mais velha das mulheres, que por ser a mais velha contemplara o afogado com menos paixão que compaixão, suspirou:

–  Tem cara de se chamar Estevão.

Era verdade. “À maioria bastou olhá-lo outra vez para compreender que não podia ter outro nome.”

Quando a mulher mais velha diz que o afogado se chamava Estevão, se faz um profundo silêncio. Nesse momento, as mulheres que andavam perdidas em seus devaneios, voltam à realidade, e o que era fascínio se transforma em compaixão:

“As mulheres que o vestiram, as que o pen­tearam, as que lhe cortaram as unhas e barbearam não puderam reprimir um estremecimento de compaixão quando tiveram de resignar-se a deixá-lo estendido no chão. (…) Mais tarde, ao lhe cobrirem o rosto com um lenço, para que não o maltratasse a luz, viram-no tão morto para sempre, tão indefeso, tão parecido com os seus homens, que se abriram as primeiras gretas de lágrimas nos seus corações. Quando os homens voltaram com a notícia de que o afogado também não era dos povoados vizinhos, sentiram um vazio de júbilo entre as lágrimas.

– Bendito seja Deus – suspiraram: – é nosso!

Os homens acreditaram que aqueles exageros não eram mais que frivolidades de mulher. Cansados das demoradas averiguações da noite, a única coisa que queriam era descartar-se de uma vez do estorvo do intruso. “Quiseram prender-lhe aos tornozelos uma ancora de navio mercante para que ancorasse, sem tropeços, nos mares mais profundos, onde os peixes são cegos e os búzios morrem de saudade, de modo que as más correntes não o devolvessem à margem, como acontecera com outros corpos”.

O sentimento das mulheres era oposto: “… quanto mais eles se apressavam, mais coisas as mulheres lembraram para perder tempo”.

Os homens pensavam que os objetos colocados pelas mulheres no afogado eram “bugigangas de alto-mar”, e que os tubarões iriam comê-lo de qualquer forma, mas elas entendiam a necessidade do ritual e sentiam que Estevão levaria uma parte delas consigo e deixaria uma parte dele no povoado.

“Tanto que os homens acabaram por se exaltar, desde quando aqui semelhante alvoroço por um morto ao léu, um afogado de nada. (…) Uma das mu­lheres, mortificada por tanta insensibilidade, tirou o lenço do rosto do cadáver e também os homens per­deram a respiração.”

Essa atitude inesperada foi necessária para que os homens reconhecessem Estevão e vissem o que as mulheres já haviam descoberto:

“Havia tanta verdade no seu modo de estar que até os homens mais descon­fiados, os que achavam amargas as longas noites domar,temendo que suas mulheres se cansassem de sonhar com eles, para sonhar com os afogados, até esses, e outros mais empedernidos, estremeceram até a me­dula com a sinceridade de Estevão.”

“Foi por isso que lhe fizeram o funeral mais esplêndido que se podia conceber para um afogado enjeitado.”

Para realizar um velório que fosse digno do afogado, as mulheres sentiram falta das flores, e para consegui-las precisaram contar o que estava acontecendo no seu povoado. Isso fez com que se estabelecesse um elo entre os vizinhos, uma união entre a vizinhança.

“Algumas mulheres, que tinham ido buscar flores nos povoados vizinhos, voltaram com outras que não acreditavam no que lhes contavam, e estas foram buscar mais flores quando viram o morto, e levaram mais e mais, até que houve tantas flores e tanta gente, que mal se podia caminhar.”

Nesse momento, Estevão já pertence ao grupo, mas sua condição de orfandade incomoda a população do povoado e, em um ato coletivo “lhe deram um pai e uma mãe dentre os melhores, e outros se fizeram seus irmãos, tios e primos, de tal forma que, através dele, todos os habitantes do povoado acabaram por ser parentes entre si.”

Pela primeira vez, enquanto carregavam o corpo de Estevão pelas escarpas, todos se deram conta da “desolação de suas ruas, a aridez de seus pátios, a estreiteza de seus sonhos, dian­te do esplendor e da beleza do seu afogado”.

Quando o afogado chegara à aldeia, “imaginaram que se aquele homem magnífico tivesse vivido no povoado, sua casa teria as portas mais largas, o teto mais alto e o piso mais firme, e o estrado de sua cama seria de cavernas mestras com pernas de ferro, e sua mulher seria a mais feliz. Pensavam que tivera tanta autoridade que poderia tirar os peixes do mar só os chamando por seus nomes, e pusera tanto empenho no trabalho que fizera brotar mananciais en­tre as pedras mais áridas, e semear flores nas escarpas”.

Depois do velório, todos começam a trabalhar para tornar realidade tudo que haviam imaginado que Estevão faria se ali morasse.

“… sabiam que seria diferente desde então, que suas casas teriam as portas mais largas, os tetos mais altos, os pisos mais firmes, para que a lembrança de Estevão pudesse an­dar por toda parte, sem bater nas traves, e que nin­guém se atrevesse a sussurrar no futuro já morreu o bobo grande, que pena, já morreu o bobo bonito, por­que eles iam pintar as fachadas de cores alegres para eternizar a memória de Estevão, e iriam quebrar a espinha cavando mananciais nas pedras e semeando flores nas escarpas para que, nas auroras dos anos venturosos, os passageiros dos grandes navios despertassem sufocados por um perfume de jardins em alto-mar, e o capitão tivesse que baixar do seu castelo de proa, em uniforme de gala, astrolábio, estrela polar e sua enfia­da de medalhas de guerra, e, apontando o promontó­rio de rosas no horizonte do Caribe, dissesse em ca­torze línguas, olhem lá, onde o vento é agora tão manso que dorme debaixo das camas, lá, onde o sol brilha tanto que os girassóis não sabem para onde girar, sim, lá é o povoado de Estevão.”

A chegada do afogado despertou um passado comum a todos e, ao se darem conta da grandiosidade desse outro tempo, a existência daqueles moradores ganha sentido. O reconhecimento desse passado mobiliza a vontade de cuidar do seu povoado, sabendo que, com seu trabalho, estariam se imortalizando e perpetuando esse passado grandioso.

Há nesse conto a ideia de que a partir de uma “visita” – que não fala, mas que desperta a fantasia e os faz imaginar – é criado no povoado um “mito fundador”. A história que Garcia Marques nos conta exemplifica o que teria acontecido na origem dos tempos: a criação coletiva dos mitos, pelos nossos ancestrais, que constituíram a base da nossa civilização.

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