Leia na íntegra o conto “Os Artistas Chineses Chineses e Gregos”, adaptação feita pela escritora Regina Machado de um poema chamado “Arte Chinesa e Arte Grega”.

Os Artistas Chineses e Gregos 

 

Regina Machado

 

 

Num reino muito distante daqui, vivia um rei que apreciava objetos de grande beleza; por isso, monarcas de outras partes do mundo sempre lhe enviavam presentes luxuosos.

 

Cada vez que chegava uma comitiva vinda de lugares distantes como a Pérsia, a Índia ou um país do Cáucaso, o rei a recebia no palácio com muita pompa. Diante de toda a corte, abria as arcas ricamente ornamentadas e admirava em silêncio as estátuas de ouro, os vasos entalhados em marfim, os retratos cujas molduras eram cravejadas de pedras preciosas que lhe mandavam os sultões como sinal de amizade.

 

Um dia, esse rei foi informado por um de seus conselheiros de que duas delegações de artistas famosos, uma proveniente da China e outra da Grécia, tinham acabado de se hospedar perto do palácio. Imediatamente ele ordenou a um emissário que fosse buscá-los. Quando eles apareceram na sala de audiências, o rei lhes disse:

 

– Eu gostaria de saber quem são os melhores artistas, os chineses ou os gregos. Por isso, vou lhes dar um prazo de três meses para pintarem a parede da frente de duas casas vazias que ficam na rua principal da cidade, uma defronte da outra. No fim desse prazo, quem tiver realizado a obra de arte mais bela, será o vencedor e receberá uma grande recompensa.

 

Os chineses se instalaram numa casa, e os gregos na outra. Dois enormes tapumes de madeira foram erguidos diante das paredes que seriam pintadas, para que ninguém pudesse vê-los trabalhar.

 

Os habitantes da cidade ficaram muito curiosos e viviam comentando o assunto nas esquinas, praças e mercados.

 

– O que será que eles estão fazendo? – perguntavam uns aos outros.

 

– Os chineses e os gregos estão bem escondidos, e guardam o maior segredo sobre o seu trabalho.

 

Um menino chamado Shakur sempre ia brincar naquela rua, e muitas vezes tentou encontrar algum buraquinho nos tapumes por onde pudesse espiar, mas nunca conseguiu. Até que um dia viu os serviçais do palácio levando material para os artistas chineses. Em carrinhos, transportavam finos pincéis de todos os tipos e tamanhos, tintas variadas em potes de vidro, pós-coloridos, dourados e prateados, compassos, réguas e esquadros, e mais um número enorme de objetos cujos nomes o menino nem conhecia.

 

“Eles devem ser artistas muito bons mesmo, para saber usar todas essas coisas”, pensava o menino Shakur, sem tirar os olhos daquilo que estava sendo entregue aos chineses.

 

Logo em seguida, viu outros serviçais aparecerem na rua com carrinhos cheios de panos velhos, lixas, baldes, sabão em grande quantidade, flanelas e potes de cera. Todo esse material foi recebido pelos artistas gregos e levado rapidamente para trás do seu tapume.

 

Shakur ficou muito intrigado: “O que será que vão fazer com tudo isso? Por que não pediram pincéis e tinta como os chineses?”.

 

Desse dia em diante, o menino Shakur passou a chegar bem cedo naquele lugar. Sentava-se numa pedra e ficava cismando. Observava o vaivém dos entregadores de material, tentava distinguir os ruídos que vinham de trás dos tapumes. Durante todo o tempo que os artistas permaneceram ali, os materiais pedidos foram sempre os mesmos.

 

Os habitantes da cidade resolveram fazer apostas sobre qual grupo seria o vencedor.

 

– Vocês não sabem que as porcelanas chinesas são as mais lindas do mundo? – dizia um.

 

– E, além do mais, – falava outro – os chineses são famosos pelas ricas pinturas de biombos, móveis e tecidos de seda. Com certeza vão ganhar.

 

Como a informação sobre o tipo de material que os grupos estavam usando tinha se espalhado, apenas uma pessoa apostou que os gregos seriam os vencedores. Foi o que se apurou ao contar as apostas.

 

– Quem foi que teve a infeliz idéia de apostar neles? – perguntou um velho.

 

– Fui eu – respondeu o menino Shakur, em meio à multidão, sem levantar da pedra onde agora estava sempre sentado. “Vamos esperar o dia marcado e então vocês vão ver se eu não tinha razão”.

 

Finalmente, passados os três meses, o rei anunciou que iria ver o resultado do trabalho dos artistas, acompanhado de seus conselheiros. Escolheu o horário do meio-dia, quando o sol, bastante forte, iluminaria bem as duas obras de arte.

 

Ao chegar o momento, os dois grupos de artistas mantiveram-se diante de seus tapumes, aguardando muito quietos a vinda do soberano.

 

O menino Shakur também estava ali, como sempre, mas num lugar especial, que ele escolhera para poder ver bem de perto as duas paredes.

 

O rei ordenou que fosse derrubado primeiro o tapume dos chineses. Quando a ordem se cumpriu, a multidão, maravilhada, ficou em silêncio. Jamais se vira obra de arte tão perfeita. A parede estava inteiramente recoberta de figuras esplêndidas. Havia casas, árvores, templos, jardins e pessoas vestidas com riqueza. Os trajes tinham sido pintados com tanta vivacidade que se podia distinguir o veludo, a seda e os tecidos adamascados da parede, feita com ornamentos delicados, viam-se brilhando a luz do sol, tons variados de todas as cores do arco-íris.

 

O rei atentava para cada detalhe, satisfeitíssimo, mal podendo se conter diante de tanta beleza.

 

– É claro que serão os vencedores – diziam algumas mulheres, apinhadas em torno da parede.

 

– Os gregos não podem ter feito nada melhor do que isso – concordavam os conselheiros do rei.

 

Pouco depois, quando todos já tinham tido tempo de admirar a obra dos chineses, o rei pediu que se retirasse o tapume da parede dos gregos. E surgiu a parede branca e lisa em que nada fora pintado, mas que, à luz radiante do sol, refletia o trabalho feito pelos chineses. A obra que se via era infinitamente mais bela, pois os raios do sol formavam ali outros matizes, que os chineses nem sequer tinham sonhado.

 

Os gregos haviam passado os três meses lavando e polindo a parede com grande cuidado e dedicação, tornando-a completamente clara e brilhante, para que dessa maneira espelhasse a magnífica pintura dos chineses.

 

Os vencedores foram os gregos, e o menino Shakur ganhou a aposta.

 

Shakur é lembrado até hoje pelos habitantes daquele reino como o menino que soube observar além das aparências e, por isso, soube apreciar com antecedência a capacidade do ser humano de imaginar a beleza escondida nas coisas do mundo.

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