Leia na íntegra o poema que deu origem ao conto de Regina Machado e as reflexões feitas com base no conto.

Artistas Chineses e Gregos

 

Jelaluddin Rumi

 

 

O profeta disse:

 

“Há alguns que me vêem através da mesma luz que eu os vejo. Nossas naturezas são uma.

Sem referências a qualquer linhagem, sem referências a textos ou tradições, juntos bebemos da mesma água da vida”.

Eis aqui uma história sobre esse mistério:

 

Os chineses e os gregos

discutiam sobre quais seriam os melhores artistas.

O rei disse:

– “Um debate resolverá essa questão”.

Os chineses começaram a falar,

os gregos nada disseram.

Eles saíram.

Os chineses sugeriram

que a cada grupo fosse dada uma sala para que criassem suas obras,

cada um com seu talento, duas salas, uma em frente a outra,

divididas por uma cortina.

Os chineses pediram ao rei

uma centena de cores, em todos os matizes,

a cada manhã vinham buscar as tintas e levavam todas.

Os gregos nada levavam.

Diziam – “As cores não fazem parte do nosso trabalho”.

Foram para a sala limpar e polir as paredes, o dia inteiro, todos os dias.

Deixaram as paredes limpas e claras como um céu aberto.

Existe um caminho que leva de todas as cores para cor nenhuma.

Saiba que a magnífica variedade das nuvens e do tempo

vem da total simplicidade do sol e da lua.

Os chineses terminaram e estavam tão felizes…

Tocaram tambores de alegria com a obra concluída.

O rei entrou na sala dos chineses,

encantado com as maravilhosas cores e detalhes.

Depois de um tempo, os gregos abriram a cortina que dividia as salas.

Na límpida parede dos gregos, imagens belíssimas,

cintilantes desenhos estavam ali refletidos. A obra dos chineses vivia ali, ainda mais bela,

sempre em mutação com as variações da luz,

sempre mais bela.

 

 

Reflexões

 

No conto Sufi “Artistas Chineses e Gregos” somos levados a pensar na ideia da complementaridade humana que resulta dos encontros. Essa unidade que se constrói não é apenas a soma das partes, é algo que vai além da individualidade de cada um – algo inédito é produzido nesse encontro.

 

Os  Chineses,  aparentemente,  têm  a  parte  mais  ativa da  relação, são eles que começam a debater, são eles que sugerem a utilização de duas salas, uma em frente à outra. Os Gregos mantêm-se em silêncio, aceitando a sugestão. E então cada grupo de artistas desenvolve seu trabalho, cada um com seu talento.

 

Os Gregos surpreendem a todos, ao revelarem uma parede branca “como um céu aberto”, sem nenhuma cor, preparada para refletir a pintura dos Chineses. A história traz a ideia de que há algo de divino que se manifesta no fazer dos homens.

 

Os Gregos sabiam que a nossa natureza é “una”, todos bebemos da mesma fonte, e a criação de nossa identidade implica em uma entrega entusiasmada às contribuições da cultura do outro, desta forma nos complementamos e nos constituímos.

 

O mundo parece estar regido por duplas complementares: positivo e negativo, passivo e ativo, noite e dia, yin e yang. Sobre essa ideia, o poeta Paul Celán resumiu: “o máximo de mim, está em você”.

 

Da mesma  forma  que  o poeta alemão, Ferreira Gular, na poesia

 

“Traduzir-se” declara:

“Uma parte de mim é todo o mundo:

outra parte é ninguém: fundo sem fundo. (…)

Traduzir-se uma parte

na outra parte

– que é uma questão

De vida ou morte –

Será arte.

 

Para essa tarefa foi importante o fato de cada grupo ter recebido uma sala para que pudessem realizar o trabalho da melhor forma. As salas, porém, não precisavam ser muito afastadas, ficavam uma de frente à outra, separadas por uma cortina, representando uma privacidade temporária, passível de ser aberta para o encontro. A privacidade, em um primeiro momento, é essencial para a criação de cada obra. Ao mesmo tempo, não estavam em casas separadas, tampouco ficavam separados por uma parede. A cortina é como um biombo que representa uma separação apenas temporária.

 

Mas, ao final, predomina a beleza da complementaridade, resultante da capacidade de confiar e saber acolher o que vem do outro. Nessa história é o fazer humano que cria e renova o mundo.

 

“Sem referências a qualquer linhagem, sem referências a textos ou tradições, juntos bebemos da mesma água da vida”.

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