Leia nossas reflexões sobre o conto “O Espelho”, de Machado de Assis.

Reflexões sobre “O Espelho” de Machado de Assis

 

“Cada criatura humana traz duas almas

Consigo: uma que olha de dentro para fora,

Outra que olha de fora para dentro…

Espantem-se à vontade; podem ficar de boca

Aberta, dar de ombros, tudo; não admito

Réplica. ”

(Opinião de Jacobina, personagem)

 

O conto “O Espelho”, é um dos mais conhecidos de Machado Assis, um texto que impressiona pela força impactante contida em tão poucas páginas, revelando a vulnerabilidade do ser humano. Na história, um homem relata a experiência, vivida na juventude, que modificou totalmente seu destino.

No início da história vemos uma bela imagem de terra e céu, sugerindo uma analogia com a natureza do ser humano. A terra, ou cidade, representando o externo, visível e passageiro. O céu, o interno, fonte de luz, o eu profundo. O externo como algo circunstancial, o interno constituindo-se dos valores que estão impregnados em nós e que se manifestam em nossas ações.

“A casa ficava no morro de Santa Teresa, a sala era pequena, alumiada a velas, cuja luz fundia-se misteriosamente com o luar que vinha de fora. Entre a cidade, com as suas agitações e aventuras, e o céu, em que as estrelas pestanejavam, através de uma atmosfera límpida e sossegada…”

A cena principal do conto acontece em um cenário em que 5 amigos conversam “amigavelmente,” sobre “várias questões de alta transcendência”. Percebemos uma ironia por parte do autor na descrição da cena, pois certamente não seria possível tratar de assuntos tão complexos com tanta cerimônia e sem envolvimento.

“Quatro ou cinco cavalheiros debatiam, uma noite, várias questões de alta transcendência, sem que a disparidade dos votos trouxesse a menor alteração aos espíritos”. Por que quatro ou cinco? Rigorosamente eram quatro os que falavam; mas, além deles, havia na sala um quinto personagem, calado, pensando, cochilando, cuja espórtula no debate não passava de um ou outro resmungo de aprovação.

O quinto homem era Jacobina.

Esse homem tinha a mesma idade dos companheiros, entre quarenta e cinquenta anos, era provinciano, capitalista, inteligente, não sem instrução, e, ao que parece, astuto e cáustico…”

Em certo momento:

“a conversa, em seus meandros, veio a cair na natureza da alma, ponto que dividiu radicalmente os quatro amigos.”

Sem conseguir chegar a um consenso sobre a natureza da alma, os senhores pedem a opinião de Jacobina, que até aquele momento mantivera-se em silêncio, mas aceita dar seu depoimento, desde que o ouvissem em silêncio:

“Vai senão quando, no meio da noite, sucedeu que este casmurro usou da palavra, e não dois ou três minutos, mas trinta ou quarenta”.

Jacobina apresenta sua tese, causando grande perplexidade àqueles que ouviam seu relato.

“Nada menos de duas almas. Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro… Espantem-se à vontade, podem ficar de boca aberta, dar de ombros, tudo; não admito réplica. Se me replicarem, acabo o charuto e vou dormir. A alma exterior pode ser um espírito, um fluido, um homem, muitos homens, um objeto, uma operação. Há casos, por exemplo, em que um simples botão de camisa é a alma exterior de uma pessoa; – e assim também a polca, o voltarete, um livro, uma máquina, um par de botas, uma cavatina, um tambor, etc. Está claro que o ofício dessa segunda alma é transmitir a vida, como a primeira; as duas completam o homem, que é, metafisicamente falando, uma laranja. Quem perde uma das metades, perde naturalmente metade da existência; e casos há, não raros, em que a perda da alma exterior implica a da existência inteira.”

Diante da incredulidade e surpresa dos amigos, Jacobina dispõe-se a comprovar sua tese – desde que não o interrompessem -, não por meio de argumentação, mas sim, através do relato de um fato concreto, vivido por ele próprio.

“…posso contar-lhes um caso de minha vida, em que ressalta a mais clara demonstração acerca da matéria de que se trata. Em primeiro lugar, não há uma só alma, há duas …”

Jacobina inicia seu relato.

“Tinha vinte e cinco anos, era pobre, e acabava de ser nomeado alferes da guarda nacional. Não imaginam o acontecimento que isto foi em nossa casa. Minha mãe ficou tão orgulhosa! tão contente! Chamava-me o seu alferes. Primos e tios, foi tudo uma alegria sincera e pura (…)tive muitas pessoas que ficaram satisfeitas com a nomeação; e a prova é que todo o fardamento me foi dado por amigos…”.

Nesta passagem, o personagem conta sobre o início de sua carreira, que apontava para um futuro promissor e feliz. Aos vinte e cinco anos foi nomeado alferes e tornara-se o orgulho dos amigos e familiares. A mãe, os amigos e outros parentes passaram a tratá-lo por “Sr. alferes”:

“E sempre alferes; era alferes para cá, alferes para lá, alferes a toda a hora. Eu pedia-lhe que me chamasse Joãozinho, como dantes; e ela abanava a cabeça, bradando que não, que era o “senhor alferes”.” (…)

Jacobina conta que, embora tenha relutado no início, com o tempo deixou-se seduzir e passa a aceitar de bom grado o tratamento especial que lhe era dedicado pela família, bem como, que o chamassem sempre pelo título de alferes e não mais pelo nome.

“Se lhes disser que o entusiasmo de tia Marcolina chegou ao ponto de mandar pôr no meu quarto um grande espelho, obra rica e magnífica, que destoava do resto da casa, cuja mobília era modesta e simples… Era um espelho que lhe dera a madrinha, e que esta herdara da mãe”

Acompanhando o relato de Jacobina, tem-se a ideia de que a aceitação das bajulações, elogios e de ser tratado como o primeiro em tudo, não representava nenhum perigo, ao contrário, parecia harmonizar-se com a alegria de todos pela conquista profissional empreendida pelo jovem. No entanto, não é isso que relata o personagem.

“O certo é que todas essas coisas, carinhos, atenções, obséquios, fizeram em mim uma transformação, que o natural sentimento da mocidade ajudou e completou.” (…)

“O alferes eliminou o homem. Durante alguns dias as duas naturezas se equilibraram; mas não tardou que a primitiva cedesse à outra; ficou-me uma parte mínima de humanidade. Aconteceu então que a alma exterior, que era dantes o sol, o ar, o campo, os olhos das moças, mudou de natureza, e passou a ser a cortesia e os rapapés da casa, tudo o que me falava do posto, nada do que me falava do homem.

Continuando sua narração, o personagem lembra que certo dia ocorre um imprevisto, sua tia Marcolina precisa ausentar-se, deixando-o sozinho com os escravos da casa.

“Confesso-lhes que desde logo senti uma grande opressão, alguma coisa semelhante ao efeito de quatro paredes de um cárcere, subitamente levantadas em torno de mim. Era a alma exterior que se reduzia; estava agora limitada a alguns espíritos boçais. O alferes continuava a dominar em mim, embora a vida fosse menos intensa, e a consciência mais débil.”

Os escravos, aproveitando a ausência da tia Marcolina, fugiram. A solidão subitamente imposta lhe era insuportável. Como poderia viver sem os elogios? Sem se dar conta, ele desenvolveu uma relação de dependência com as bajulações constantes. É importante notar que não era das pessoas que sentia falta, mas sim, do tratamento de reverência que recebia delas.

O homem conta que após vários dias de desespero resolve olhar-se no espelho, na esperança de encontrar algum alívio.

‘‘Convém dizer-lhes que, desde que ficara só, não olhara uma só vez para o espelho. Não era abstenção deliberada, não tinha motivo; era um impulso inconsciente, um receio de achar-me um e dois, ao mesmo tempo, naquela casa solitária; e se tal explicação é verdadeira, nada prova melhor a contradição humana, porque no fim de oito dias deu-me na veneta de olhar para o espelho com o fim justamente de achar-me dois. Olhei e recuei. O próprio vidro parecia conjurado com o resto do universo; não me estampou a figura nítida e inteira, mas vaga, esfumada, difusa, sombra de sombra. A realidade das leis físicas não permite negar que o espelho reproduziu-me textualmente, com os mesmos contornos e feições; assim devia ter sido. Mas tal não foi a minha sensação. Então tive medo; atribuí o fenômeno à excitação nervosa em que andava; receei ficar mais tempo, e enlouquecer.’’

A essa altura, os amigos, que ouviam atentamente a história, ansiavam por conhecer o seu desfecho.

“Lembrou-me vestir a farda de alferes. Vesti-a, aprontei-me de todo; e, como estava defronte do espelho, levantei os olhos, e… não lhes digo nada; o vidro reproduziu então a figura integral; nenhuma linha de menos, nenhum contorno diverso; era eu mesmo, o alferes, que achava, enfim, a alma exterior. Essa alma ausente com a dona do sítio, dispersa e fugida com os escravos, ei-la recolhida no espelho.”

No final do conto percebemos que Jacobina consegue comprovar de forma irrefutável sua tese sobre a existência de duas almas, relatando-nos sua experiência para nos alertar dos perigos do excesso de elogios. A sua família, mesmo com tanta boa vontade em elogiá-lo, colaborou para que ele perdesse, por um tempo, a sua alma interna, pois os elogios acabaram lhe seduzindo a ponto de lhe causar dependência.

No início do relato, Jacobina é apresentado como um homem “cáustico e casmurro”, no entanto, vemos no final um homem profundamente generoso, que depois de um relato tão íntimo vai embora sem esperar Elogios.

“Quando os outros voltaram a si, o narrador tinha descido as escadas.”

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