Leia o maravilhoso conto “O pintor, a cidade e o mar”, de Monika Feth.

O Pintor viveu por muito tempo numa grande cidade. Ele havia pin­tado as ruas, os becos, as ruelas, as casas e os pátios. Havia pintado as pequenas lojas, com seus toldos desbotados pelo sol, com suas frutas e verduras expostas nas prateleiras.

Havia pintado os cafés, com suas mesas ornadas de guarda-sóis e to­alhas esvoaçantes, os automóveis, os ônibus, os bondes, a estação e os trens. Havia pintado a fumaça saindo das chaminés, as castanheiras e os redondos canteiros de flores do Parque da Cidade, o Monumento aos Sol­dados, sujo de titica de passarinhos e o Jardim Zoológico. O Pintor havia pintado os muros, cheios de cartazes de propaganda, os cinemas, o Teatro Municipal e a Cadeia Pública. Havia pintado os músicos de rua nos calça­dões, as crianças nos parques e os mendigos nos bancos das praças. Havia pintado os cachorrinhos de madame e os vira-latas, os gatos preguiçosos atrás das vidraças e os gatos sarnentos nas lixeiras, os pombos barulhen­tos nas praças e nos telhados. Havia pintado os bosques e os campos nos arredores da cidade. Havia pintado o lago, o riacho e o depósito de lixo. Havia pintado tudo e já estava ficando velho. Sua grande barba, cheia e escura, tornara-se rala e cinzenta como as nuvens. Então, ele se pôs a pensar: o que é que eu vou pintar agora?

O Pintor ouvira falar do mar. Mas ele era um homem pobre. O que ganhava mal dava para comprar suas telas, tintas, roupas, comida e para pagar o aluguel da minúscula casa onde morava. Como poderia viajar para ver se o mar era realmente tão imenso e belo como diziam? Ele era um homem orgulhoso. Nunca aceitaria dinheiro de ninguém, nem mesmo que fosse de um amigo. Assim, durante algum tempo, ele se contentou em fazer a viagem apenas na imaginação. Olhava os livros que retrata­vam o mar, folheava os catálogos das agências de turismo e escutava as histórias das pessoas que conheciam o mar. Vivia longe e distante, nos seus sonhos.

Mas chegou o momento em que isso já não o satisfazia. Uma forte vontade foi tomando conta dele e não o deixou mais. Dominado pelo seu sonho, o Pintor tinha febre e mal conseguia dormir. O único remédio era o mar. E ele passou a fazer economias. Só comia pão e batata, e bebia ape­nas água. Ele mesmo cortava seu cabelo e aparava sua barba. Não andava mais de bonde ou de ônibus. Vendeu sua bicicleta e o aparelho de chá que herdara da mãe. Vendeu o armário e o sofá, seus livros, uma cômoda ta­lhada à mão e seu relógio de pulso. Uma noite, sentado, em sua casa qua­se vazia, ele contou o dinheiro. Era o suficiente. Comprou a passagem, e no dia seguinte eu o acompanhei à estação ferroviária. Enquanto o trem se afastava, ele acenava para mim com um lenço branco. E fiquei olhando até o lenço se transformar num pontinho do tamanho de uma mosca.

Não são muitas as pessoas que têm a sorte de realizar seus sonhos. O Pintor sabia disso. Quando desceu do trem para tomar o navio que o levaria à ilha, estava tão emocionado que os dedos que seguravam a alça da mala chegavam a doer.

Ele estava em frente ao mar e não tinha palavras, pois nesse momento todos os seus pensamentos se calaram. A água chegava até o horizonte, onde se encontrava com o céu; vinha em ondas, lambia a areia e ia em­bora. As ondas, com suas espumas brancas pareciam cantar uma melodia que penetrava fundo no seu coração.

Na ilha, o Pintor alugou um quartinho barato: pequeno, não muito limpo e com as paredes um tanto tortas. Ali, havia uma cama, uma mesa, uma cadeira e um armário. Mais nada. A cada passo, o assoalho rangia e gemia. O espelho sobre a pia era opaco e riscado como uma teia de ara­nha. Mas, da janela, o Pintor via o mar. E tudo o que existia para ele era o mar e aquela nova melodia na sua cabeça.

Todos os dias o Pintor saía para passear levando em uma sacola seus lápis e um bloco de desenho. Desenhava tudo o que aparecia diante dos seus olhos, não importando se chovesse ou fizesse sol. Às vezes, seus dedos não eram suficientemente rápidos para o que ali o esperava e que agora o invadia, imagem após imagem.

Desenhava o mar sempre diferente, às vezes cinza, às vezes azul, às vezes verde ou salpicado de prata, num momento feroz, revoltado, rugin­do e bramando, e de repente tranqüilo e liso como a toalha da mesa de sua casa. Desenhava a maré alta e a maré baixa, os quebra-mares, as casinhas tortas, com os telhados em forma de chapéu cobertos de musgo, flores por cima dos muros, as conchas, os sargaços balançando na maré cheia: as dunas, os juncos e os sabugueiros pálidos nas praias.

Desenhava os barcos de pesca no porto e as balsas lá fora e no cais. Desenhava os tratores nos campos, o bulício das gralhas famintas nas roças recém-revolvidas, os pescadores remendando suas redes, os velhos conversando encostados nas cercas e os rastros enigmáticos encontrados nos estuários. Desenhava as vacas nos pastos e as ovelhas nos diques, os canais de drenagem que cortavam a terra e que refletiam um céu rasgado, os celeiros, os estábulos e os enormes feixes de feno nas campinas. Dese­nhava os camponeses no seu trabalho, os montes de esterco na frente das casas das fazendas e as galinhas esgravatando assiduamente a terra. Bem cedinho, antes mesmo do amanhecer, ele se levantava e desenhava até a luz deixar o dia.

Logo se tornou conhecido e passou a conhecer todos os habitantes da ilha. Era uma vida boa. Durante o dia, nos jardins de odores soníferos, e à noite, nas casas aconchegantes, o Pintor reunia-se a eles para tomar um copo de vinho ou uma xícara de chá. Então, tirava seu lápis da sacola e desenhava aqueles rostos curtidos pelo tempo, com suas risadas, seus silêncios e tudo o mais que encontrava neles.

Quando as pessoas queriam ver seus desenhos, ele os mostrava. Elas olhavam demoradamente e ficavam pensativas, consentindo com a cabe­ça. Aqui ninguém era amigo de muitas palavras.

Mas, apesar da vida modesta que o Pintor levava, o dinheiro econo­mizado começava a minguar. A dona do quarto comprou um de seus de­senhos e o carteiro também, assim como a garçonete do barzinho que ele costumava freqüentar. Isso lhe proporcionou mais algumas semanas na ilha. Mas chegou o dia em que teve de voltar à cidade. O dinheiro havia acabado.

Na bagagem, o Pintor trazia uma pilha de desenhos, um punhado de pedras, um saquinho de conchas e um outro de areia; na cabeça, trazia muitos quadros que ainda não havia pintado. Depois de ter tirado as coi­sas da mala, o Pintor sentou-se diante do cavalete e começou a pintar suas memórias.

O quadro mais bonito mostrava o mar e uma pequena casa, construída sobre um recife, com seu chapeuzinho de sapé e um jardim florido de ro­seiras. O Pintor pendurou esse quadro sobre sua cama. Considerava-o o melhor de todos os que já havia pintado. Quando alguém queria comprá-lo, ele dizia que não, apenas com um balançar silencioso de cabeça.

Seria difícil dizer o que havia de tão especial naquele quadro. Era sim­plesmente algo que se podia sentir quando se olhava para ele. Sua luz maravilhosa parecia mudar suave e constantemente, como o próprio mar. Em nenhum dia o quadro era igual ao dia anterior.

E o tempo foi passando. O Pintor começou a sentir aquele mesmo desejo que o levara ao mar. Mas, como só muito raramente conseguia vender algum quadro, já não tinha mais dinheiro ou qualquer coisa para vender. Além disso, já estava muito velho, velho demais para suportar o esforço de uma viagem.

— Foi um erro ter voltado para a cidade – disse-me um dia – devia ter pensado melhor. E risonho, acrescentou: Mas eu não quero reclamar.Já vi o mar e o pintei.

Uma tarde, como muitas vezes fazia, o Pintor estava sentado diante do seu quadro predileto (aliás, o único na parede do seu quarto) e o con­templava. Num primeiro momento nada notou. Depois, achou que seus olhos o estavam enganando. Mas, quando olhou melhor, percebeu que não se tratava de uma miragem. A porta da pequena casa abriu-se um pouquinho. Ele apertou os olhos e se inclinou para ver mais de perto. A porta abriu-se mais um pouco e ao espiar lá dentro, o Pintor viu uma sala aconchegante e no centro dela, um cavalete. Alguma coisa o fez levantar-se e dirigir-se para o quadro e para a porta que havia lá, agora totalmente aberta. O quadro o deixou entrar.

O Pintor nem sequer achou estranho que uma coisa assim fosse pos­sível. E, entrando na sala da casa do quadro, como se isso fosse normal, sentou-se à frente do cavalete. Desde então, todas as tardes o Pintor saía da cidade e entrava no quadro. Caminhava pela praia pegando pedras e destroços trazidos pelo mar, ou sentava-se no banco do jardim e contem­plava o tom róseo avermelhado das malvas, o amarelo pálido dos dentes-de-leão e o azul carregado dos acônitos. E aspirava aromas de lavanda, melissa e tomilho.

Sob seus passos, formavam-se pequenas nuvens de poeira, pois no quadro era sempre verão. Antes de dormir, o Pintor contemplava as for­mas que o luar desenhava no chão, enquanto escutava o murmúrio da chuva e o marulhar das ondas. Então, dormia profundamente e só de ma­drugada voltava para a cidade.

Uma manhã, o Pintor resolveu não voltar. Hoje, o quadro se encontra no museu da nossa cidade. As pessoas param diante dele e o admiram. Elas vêm o mar, o jardim e a pequena casa de porta fechada.

Só para mim é que de vez em quando a porta se abre. Mas, infelizmen­te, só de vez em quando, e apenas nos dias em que não há outras pessoas no museu além de mim.

Mas isso já não me assusta. Meu amigo, o Pintor, me convida para tomar um chá e conversa comigo sobre este ou aquele assunto. Às vezes, quando o tempo está bonito e à luz do sol suave, caminhamos juntos a beira-mar e molhamos os pés na água, secando-os depois na areia morna.

Quando chega minha hora de voltar, meu amigo fica no portão, ace­nando para mim. Suas roupas estão gastas, sua barba agora está branca e muito comprida. Mas no seu rosto há um sorriso feliz.

 

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