Leia na íntegra os “Três Contos, Três Tempos” e as reflexões sobre essas belas obras.

Três contos, três tempos – Introdução

 

“A moça tecelã”, “Perdoando Deus” e “De muito procurar”

 

A relação criada entre os contos acima nos dá a oportunidade de refletir a respeito do desenvolvimento humano. Foi Freud quem distinguiu os três sistemas que ilustram a evolução da forma que o homem concebe o universo: o animismo (o que eu penso acontece, e eu posso tudo), o religioso (Deus pode tudo, e pode satisfazer meus desejos) e o científico (um só não basta, é importante ter alguém e um espaço para experimentação).

“Na fase animista, os homens atribuem a onipotência a si mesmos. Na fase religiosa, transferem-na para os deuses, mas eles próprios não desistem dela totalmente, porque se reservam o poder de influenciar os deuses através de uma variedade de maneiras, de acordo com os seus desejos. A visão científica do universo já não dá lugares à onipotência humana; os homens reconheceram a sua pequenez e submeteram-se resignadamente à morte e às outras necessidades na natureza. Não obstante, um pouco da crença primitiva na onipotência ainda sobrevive na fé dos homens no poder da mente humana, que entra em luta com as leis da realidade.” (Totem e Tabu e Outros Trabalhos, Freud)

No conto “A moça tecelã”, tudo que ela tecia acontecia. Estava vivendo no tempo animista. Da mesma maneira que criava tudo, acreditava poder criar um homem para preencher seu vazio. Continuou a fazer o que sempre fez: tecer sozinha. Aquele homem não preenchia sua solidão e, se sentindo explorada e triste por ele sempre estar insatisfeito e querendo mais coisas de seu tear, ela o desfez do mesmo modo como o tinha feito.

No conto “Perdoando Deus”, a mulher também se encontrava neste tempo animista mítico e criou um Deus fantástico, uma realidade outra. Neste tempo poético se sente “a mãe de Deus, que era a Terra, o mundo”, mas este momento sublime é quebrado quando se confronta com um rato morto. O rato atrapalhava esta realidade perfeita. A imagem inventada no início se desfaz e o que é maravilhoso e divino passa a ser cruel e vil. O sentimento de vingança toma o lugar do amor anterior.

Após o choque inicial, a mulher reflete que não sabia ceder, que não conseguia conviver nem com o que era contrário a ela nem com ela mesma. E começa a ver Deus como algo além de si, independente de sua existência. Aqui, admite: enquanto inventar Deus, “ele não existe”.

Tanto a moça tecelã quanto a mulher do conto de Clarice Lispector estão nesse estágio chamado animismo. Mas a moça tecelã não percebe que o marido era uma outra pessoa e não uma ‘coisa’, como as outras que tecia. Já a segunda mulher consegue perceber a necessidade de se relacionar com a realidade, e não somente com a criação de um ser idealizado por ela.

Algumas pessoas, como a moça tecelã, não conseguem sair desse primeiro estágio. Culpam os outros, apontando dedos e dizendo que fazem tudo, doam tudo, e não recebem nada de volta. Se alguns se sentem traídos e se fecham, felizmente outros conseguem elaborar os motivos da raiva e da traição, e aprendem a difícil lição de tecer as relações humanas.

O homem de “De muito procurar” era um homem bom, mas não sabia como se relacionar. Sua procura diária por coisas nas ruas agia como um preenchimento de sua vida. Considerava chaves e botões perdidos preciosidades, mas a porta de sua casa estava sempre fechada e ele mantinha a cabeça baixa, como se os tesouros encontrados não fossem suficientes. A mulher que nos é apresentada sabe que precisa do outro para realizar seus desejos. Ela soube como valoriza-lo e conduzi-lo ao encontro da mãe natureza, e o homem que olhava sempre para baixo ganha muito nessa caminhada junto com ela. Enquanto ele pensa que a ajuda a procurar seu juízo, é ela que o ajuda a encontrar a primeira flor da primavera, o símbolo do espírito. Ao encontrar a flor, ele finalmente levanta a cabeça e, feliz, a oferece para ela.

Nos três contos fica claro que a relação é um aprendizado. A moça tecelã acreditava que poderia viver bem fazendo apenas o que sabia e não desenvolve uma relação com o marido que ela criou.

A moça de “Perdoando Deus” em um primeiro momento acreditava que era a mãe de Deus. Sentia-se, “por carinho, a mãe de tudo que existe.” Logo nesse momento de plenitude, deparou-se com o rato morto, e se sentiu traída por Deus. Pensou em vingar-se d’Ele. Pensou que os ratos todos tinham sido criados por Ele apenas para tirar sua alegria. “E a revolta de súbito me tomou: então não podia eu me entregar desprevenida ao amor?” Desesperada, ela fechou violentamente os olhos, porque não queria mais ver, mas a imagem colava-se às pálpebras. E apesar da vontade de morrer, depois de um tempo, “toda trêmula” continuou a viver. “Toda perplexa”, continuou a andar.

Por fim, a terceira moça, em “De muito procurar”, parece ter passado pelos conflitos e sabe como construir uma relação, dar tempo ao tempo e confia que aquele homem, em contato com o perfume das flores, vai reconhecer suas belezas.

É muito importante que estes três sistemas estejam integrados. O resultado é a união de poder acreditar em si mesmo, no outro e de elaborar ideias em conjunto. Freud também diz que a onipotência de pensamentos permanece, desde os tempos primitivos, no campo da arte.

“Somente na arte acontece ainda que um homem consumido por desejos efetue algo que se assemelhe à realização desses desejos e faz com que um sentido lúdico produza efeitos emocionais – graças à ilusão artística – como se fosse algo real.” (Idem.)

Na opinião de Reinach, estudioso citado pelo autor, os artistas primitivos que deixaram as gravuras e as pinturas de animais nas cavernas não tinham o intuito de agradar, mas de “evocar” algo. É este o poder da arte até os tempos de hoje: no fazer, o artista “evoca” uma situação, e ao mesmo tempo em que, até certo ponto, “controla” seu desenvolvimento.

Nem sempre o conflito é resolvido, como no caso da moça tecelã. Mas mesmo sem apresentar uma resposta concreta, a jornada da escrita (e da leitura) continua sendo um aprendizado. No fazer, o escritor parte do mundo da onipotência de suas próprias ideias e trilha um caminho.

Quando lemos muitas vezes a mesma obra, como se faz no Círculo de Leitura, o percurso trilhado se torna cada vez mais claro, e o aprendizado cada vez maior.

Esses estágios se manifestam no fazer, em que resgatamos a onipotência das ideias. Quando um autor cria, dá vida a algo que antes não existia, e de acordo com seu próprio universo. Mas é apenas quando vence os impasses e os imprevistos que a realidade lhe impõe que termina uma obra. É quando finalmente sente a alegria divina do criador. Na leitura, ao entrarmos em contato com este processo, mantemos vivos estes três tempos.

 

A Moça Tecelã

 

Marina Colassanti

 

Acordava ainda no escuro, como se ouvisse o sol chegando atrás das beiradas da noite e logo sentava-se ao tear.

Linha clara, para começar o dia. Delicado traço cor de luz, que ela ia passando entre os fios estendidos, enquanto lá fora a claridade da manhã desenhava o horizonte.

Depois lãs vivas, quentes lãs iam tecendo, hora a hora, em longo tapete que nunca acabava.

Se era forte demais o sol e no jardim pendiam as pétalas, a moça colocava na lançadeira grossos fios cinzentos do algodão mais felpudo. Em breve, na penumbra trazida pelas nuvens, escolhia um fio de prata, que em pontos longos rebordava sobre o tecido. Leve, a chuva vinha cumprimentá-la à janela.

Mas se durante muitos dias o vento e o frio brigavam com as folhas e espantavam os pássaros, bastava a moça tecer com seus belos fios dourados, para que o sol voltasse a acalmar a natureza.

Assim, jogando a lançadeira de um lado para outro e batendo os grandes pentes do tear para frente e para trás, a moça passava os seus dias.

Nada lhe faltava. Na hora da fome tecia um lindo peixe, com cuidado de escamas. E eis que o peixe estava na mesa, pronto para ser comido. Se sede vinha, suave era a lã cor de leite que entremeava o tapete. E à noite, depois de lançar seu fio de escuridão, dormia tranquila.

Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer. Mas tecendo e tecendo, ela própria trouxe o tempo em que se sentiu sozinha, e pela primeira vez pensou em como seria bom ter um marido ao lado.

Não esperou o dia seguinte. Com capricho de quem tenta uma coisa nunca conhecida, começou a entremear no tapete as lãs e as cores que lhe dariam companhia. E aos poucos seu desejo foi aparecendo, chapéu emplumado, rosto barbado, corpo aprumado, sapato engraxado. Estava justamente acabando de entremear o último fio de ponto dos sapatos, quando bateram à porta.

Nem precisou abrir. O moço meteu a mão na maçaneta, tirou o chapéu de pluma e foi entrando em sua vida. Aquela noite, deitada no ombro dele, a moça pensou nos lindos filhos que teceria para aumentar ainda mais a sua felicidade.

E feliz foi, durante algum tempo. Mas se o homem tinha pensado em filhos, logo os esqueceu. Porque tinha descoberto o poder do tear, em nada mais pensou a não ser nas coisas todas que ele poderia lhe dar.

— Uma casa melhor é necessária — disse para a mulher. E parecia justo, agora que eram dois. Exigiu que escolhesse as mais belas lãs cor de tijolo, fios verdes para os batentes, e pressa para a casa acontecer.

Mas pronta a casa, já não lhe pareceu suficiente.

— Para que ter casa, se podemos ter palácio? —perguntou. Sem querer resposta, imediatamente ordenou que fosse de pedra com arremates em prata.

Dias e dias, semanas e meses trabalhou a moça tecendo tetos e portas, pátios e escadas, salas e poços. A neve caía lá fora, e ela não tinha tempo para chamar o sol. A noite chegava, e ela não tinha tempo para arrematar o dia. Tecia e entristecia, enquanto sem parar batiam os pentes acompanhando o ritmo da lançadeira.

Afinal o palácio ficou pronto. E entre tantos cômodos, o marido escolheu para ela e seu tear o mais alto quarto da mais alta torre.

É para que ninguém saiba do tapete — ele disse. E antes de trancar a porta à chave, advertiu:

— Faltam as estrebarias. E não se esqueça dos cavalos! Sem descanso tecia a mulher os caprichos do marido, enchendo o palácio de luxos, os cofres de moedas, as salas de criados. Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer.

E tecendo, ela própria trouxe o tempo em que sua tristeza lhe pareceu maior que o palácio com todos os seus tesouros. E pela primeira vez pensou em como seria bom estar sozinha de novo.

Só esperou anoitecer. Levantou-se enquanto o marido dormia sonhando com novas exigências. E descalça, para não fazer barulho, subiu a longa escada da torre, sentou-se ao tear.

Desta vez não precisou escolher linha nenhuma. Segurou a lançadeira ao contrário, e jogando-a veloz de um lado para o outro, começou a desfazer seu tecido. Desteceu os cavalos, as carruagens, as estrebarias, os jardins. Depois desteceu os criados e o palácio e todas as maravilhas que continha. E novamente se viu na sua casa pequena e sorriu para o jardim além da janela.

A noite acabava quando o marido estranhando a cama dura acordou, e espantado, olhou em volta. Não teve tempo de se levantar. Ela já desfazia o desenho escuro dos sapatos, e ele viu seus pés desaparecendo, sumindo as pernas. Rapidamente, o nada subiu-lhe pelo corpo, tomou o peito aprumado, o emplumado chapéu.

Então, como se ouvisse a chegada do sol, a moça escolheu uma linha clara. E foi passando-a devagar entre os fios, delicado traço de luz, que a manhã repetiu na linha do horizonte.

(Doze reis e a moça no labirinto do vento – Marina Colassanti)

 

Perdoando Deus

 

Clarice Lispector

 

Eu ia andando pela Avenida Copacabana e olhava distraída edifícios, nesga de mar, pessoas, sem pensar em nada. Ainda não percebera que na verdade não estava distraída, estava era de uma atenção sem esforço, estava sendo uma coisa muito rara: livre. Via tudo, e à toa. Pouco a pouco é que fui percebendo que estava percebendo as coisas. Minha liberdade então se intensificou um pouco mais, sem deixar de ser liberdade.

Tive então um sentimento de que nunca ouvi falar. Por puro carinho, eu me senti a mãe de Deus, que era a Terra, o mundo. Por puro carinho mesmo, sem nenhuma prepotência ou glória, sem o menor senso de superioridade ou igualdade, eu era por carinho a mãe do que existe. Soube também que se tudo isso “fosse mesmo” o que eu sentia – e não possivelmente um equívoco de sentimento – que Deus sem nenhum orgulho e nenhuma pequenez se deixaria acarinhar, e sem nenhum compromisso comigo. Ser-Lhe-ia aceitável a intimidade com que eu fazia carinho. O sentimento era novo para mim, mas muito certo, e não ocorrera antes apenas porque não tinha podido ser. Sei que se ama ao que é Deus. Com amor grave, amor solene, respeito, medo e reverência. Mas nunca tinham me falado de carinho maternal por Ele. E assim como meu carinho por um filho não o reduz, até o alarga, assim ser mãe do mundo era o meu amor apenas livre.

E foi quando quase pisei num enorme rato morto. Em menos de um segundo estava eu eriçada pelo terror de viver, em menos de um segundo estilhaçava-me toda em pânico, e controlava como podia o meu mais profundo grito. Quase correndo de medo, cega entre as pessoas, terminei no outro quarteirão encostada a um poste, cerrando violentamente os olhos, que não queriam mais ver. Mas a imagem colava-se às pálpebras: um grande rato ruivo, de cauda enorme, com os pés esmagados, e morto, quieto, ruivo. O meu medo desmesurado de ratos.

Toda trêmula, consegui continuar a viver. Toda perplexa continuei a andar, com a boca infantilizada pela surpresa. Tentei cortar a conexão entre os dois fatos: o que eu sentira minutos antes e o rato. Mas era inútil. Pelo menos a contigüidade ligava-os. Os dois fatos tinham ilogicamente um nexo. Espantava-me que um rato tivesse sido o meu contraponto. E a revolta de súbito me tomou: então não podia eu me entregar desprevenida ao amor? De que estava Deus querendo me lembrar? Não sou pessoa que precise ser lembrada de que dentro de tudo há o sangue. Não só não esqueço o sangue de dentro como eu o admiro e o quero, sou demais o sangue para esquecer o sangue, e para mim a palavra espiritual não tem sentido, e nem a palavra terrena tem sentido. Não era preciso ter jogado na minha cara tão nua um rato. Não naquele instante. Bem poderia ter sido levado em conta o pavor que desde pequena me alucina e persegue, os ratos já riram de mim, no passado do mundo os ratos já me devoraram com pressa e raiva. Então era assim?, eu andando pelo mundo sem pedir nada, sem precisar de nada, amando de puro amor inocente, e Deus a me mostrar o seu rato? A grosseria de Deus me feria e insultava-me. Deus era bruto. Andando com o coração fechado, minha decepção era tão inconsolável como só em criança fui decepcionada. Continuei andando, procurava esquecer. Mas só me ocorria a vingança. Mas que vingança poderia eu contra um Deus Todo-Poderoso, contra um Deus que até com um rato esmagado poderia me esmagar? Minha vulnerabilidade de criatura só. Na minha vontade de vingança nem ao menos eu podia encará-Lo, pois eu não sabia onde é que Ele mais estava, qual seria a coisa onde Ele mais estava e que eu, olhando com raiva essa coisa, eu O visse? no rato? naquela janela? nas pedras do chão? Em mim é que Ele não estava mais. Em mim é que eu não O via mais.

Então a vingança dos fracos me ocorreu: ah, é assim? pois então não guardarei segredo, e vou contar. Sei que é ignóbil ter entrado na intimidade de Alguém, e depois contar os segredos, mas vou contar – não conte, só por carinho não conte, guarde para você mesma as vergonhas Dele – mas vou contar, sim, vou espalhar isso que me aconteceu, dessa vez não vai ficar por isso mesmo, vou contar o que Ele fez, vou estragar a Sua reputação.

… mas quem sabe, foi porque o mundo também é rato, e eu tinha pensado que já estava pronta para o rato também. Porque eu me imaginava mais forte. Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil. É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda. E é também porque sempre fui de brigar muito, meu modo é brigando. É porque sempre tento chegar pelo meu modo. É porque ainda não sei ceder. É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria – e não o que é. É porque ainda não sou eu mesma, e então o castigo é amar um mundo que não é ele. É também porque eu me ofendo à toa. É porque talvez eu precise que me digam com brutalidade, pois sou muito teimosa. É porque sou muito possessiva e então me foi perguntado com alguma ironia se eu também queria o rato para mim. É porque só poderei ser mãe das coisas quando puder pegar um rato na mão. Sei que nunca poderei pegar num rato sem morrer de minha pior morte. Então, pois, que eu use o magnificat que entoa às cegas sobre o que não se sabe nem vê. E que eu use o formalismo que me afasta. Porque o formalismo não tem ferido a minha simplicidade, e sim o meu orgulho, pois é pelo orgulho de ter nascido que me sinto tão íntima do mundo, mas este mundo que eu ainda extraí de mim de um grito mudo. Porque o rato existe tanto quanto eu, e talvez nem eu nem o rato sejamos para ser vistos por nós mesmos, a distância nos iguala. Talvez eu tenha que aceitar antes de mais nada esta minha natureza que quer a morte de um rato. Talvez eu me ache delicada demais apenas porque não cometi os meus crimes. Só porque contive os meus crimes, eu me acho de amor inocente. Talvez eu não possa olhar o rato enquanto não olhar sem lividez esta minha alma que é apenas contida. Talvez eu tenha que chamar de “mundo” esse meu modo de ser um pouco de tudo. Como posso amar a grandeza do mundo se não posso amar o tamanho de minha natureza? Enquanto eu imaginar que “Deus” é bom só porque eu sou ruim, não estarei amando a nada: será apenas o meu modo de me acusar. Eu, que sem nem ao menos ter me percorrido toda, já escolhi amar o meu contrário, e ao meu contrário quero chamar de Deus. Eu, que jamais me habituarei a mim, estava querendo que o mundo não me escandalizasse. Porque eu, que de mim só consegui foi me submeter a mim mesma, pois sou tão mais inexorável do que eu, eu estava querendo me compensar de mim mesma com uma terra menos violenta que eu. Porque enquanto eu amar a um Deus só porque não me quero, serei um dado marcado, e o jogo de minha vida maior não se fará. Enquanto eu inventar Deus, Ele não existe.

 

Reflexão Perdoando Deus

 

A personagem alcança a verdadeira liberdade no momento em que

integra o ideal ao real

e, com fé, se entrega ao “magnificant que entoa às cegas

sobre o que não se sabe nem se vê.”

 

A personagem estava caminhando pela rua, sentindo-se livre, muito poderosa – a mãe criadora, em harmonia com as coisas e com Deus:

“Estava sendo uma coisa muito rara: livre. (…) Minha liberdade então se intensificou um pouco mais, sem deixar de ser liberdade. Tive então um sentimento de que nunca ouvi falar. Por puro carinho, eu me senti a mãe de Deus, que era a Terra, o mundo. Por puro carinho mesmo, sem nenhuma prepotência ou glória, sem o menor senso de superioridade ou igualdade, eu era por carinho a mãe do que existe. O sentimento era novo para mim, mas muito certo, e não ocorrera antes apenas porque não tinha podido ser. Sei que se ama ao que é Deus. Com amor grave, amor solene, respeito, medo e reverência. Mas nunca tinham me falado de carinho maternal por Ele.

E assim como meu carinho por um filho não o reduz, até o alarga, assim ser mãe do mundo era o meu amor apenas livre.”

Esse momento de graça vivido pela narradora é subitamente interrompido quando pisa em um rato morto e é confrontada com a realidade:

“Toda trêmula, consegui voltar a viver. Toda perplexa continuei a andar, com a boca infantilizada pela surpresa. Tentei cortar a conexão entre os dois fatos: o que eu sentira minutos antes e o rato. Mas era inútil. Pelo menos a contigüidade ligava-os. Os dois fatos tinham ilogicamente um nexo. Espantava-me que um rato tivesse sido o meu contraponto. E a revolta de súbito me tomou: então não podia eu me entregar desprevenida ao amor? De que estava Deus querendo me lembrar?”

Nesse momento, ela sentiu como se estivesse morrendo: o ideal de um Deus perfeito que havia criado revelou-se muito frágil. Ela sentia que era livre, quando na verdade estava presa ao ideal que havia criado. Diante da frustração, a primeira reação da narradora é sentir raiva, e logo essa raiva se transforma em vingança: “Então a vingança dos fracos me ocorreu.” Quer “arruinar a reputação” de Deus. Após ter vivenciado os sentimentos de frustração, a raiva e a vingança, reconhece em si mesma a vontade de “matar o rato”.

“Como posso amar a grandeza do mundo se não posso amar o tamanho de minha natureza? (…) Porque eu me imaginava mais forte. Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil.

É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria – e não o que é. É porque ainda não sou eu mesma, e então o castigo é amar um mundo que não é ele.”

O rato representa algo da natureza instintiva que ela não admitia em si mesma e, nesse momento, compreende que sem aceitar esse lado, estaria sempre desassociada da vida. “Só poderei ser mãe das coisas quando puder pegar um rato na mão.” Com essa reflexão, a personagem integra o ideal distante à realidade viva, pulsante, e passa da frustração para a compreensão – aquela experiência que em um primeiro momento foi sentida como “morte” foi justamente o que possibilitou sua integração com a vida real.

A personagem havia idealizado um Deus para fugir de si mesma e de um lado seu que não sabia como lidar, negando seus próprios impulsos: “Talvez eu tenha que aceitar antes de mais nada esta minha natureza que quer a morte de um rato. (…)Talvez eu me ache delicada demais apenas porque não cometi os meus crimes. Só porque contive os meus crimes, eu me acho de amor inocente.” Admite que queria fazer as coisas do seu jeito e não sabia ceder: “E é porque sempre fui de brigar muito, meu modo é brigando. É porque sempre tento chegar pelo meu modo.” Sentia-se muito protegida e amada, e precisou de um choque intenso para entrar na realidade: “Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil”.

Aos poucos, a narradora reconhece que Deus tem uma existência própria:

“Enquanto eu imaginar que “Deus” é bom só porque eu sou ruim, não estarei amando a nada: será apenas o meu modo de me acusar. Eu, que jamais me habituarei a mim, estava querendo que o mundo não me escandalizasse. (…) eu estava querendo me compensar de mim mesma com uma terra menos violenta que eu. Porque enquanto eu amar a um Deus só porque não me quero, serei um dado marcado, e o jogo de minha vida maior não se fará. Enquanto eu inventar Deus, Ele não existe.”

O “dado marcado” simboliza uma jogada em que já sabemos o resultado, e a personagem percebe que da forma como vivia, o jogo da vida não acontecia. Compreende, agora, que havia inventado Deus para fugir de si mesma, e que Ele existe e tem vida própria. Deus representa os mistérios do mundo do qual todos nós fazemos parte. A personagem alcança a verdadeira liberdade no momento em que integra o ideal ao real e, com fé, se entrega aos mistérios do mundo, ao magnificat1que entoa às cegas sobre o que não se sabe nem se vê.”

Nesta pequena história a personagem atravessa, com intensidade, diferentes estágios da compreensão humana: onipotência, idealização, desilusão, raiva, vingança, sentimento de morte, compreensão, e renascimento. Finalmente, se reconcilia consigo mesma e se entrega confiante aos mistérios do mundo, equilibrando o “eu quero” ao “querer do Outro”.

 

1 – Magnificat (também conhecida como Canção de Maria) é um cântico entoado (ou recitado) frequentemente na liturgia dos serviços eclesiásticos cristãos. O texto do cântico vem diretamente do Evangelho segundo Lucas, onde é recitado pela Virgem Maria na ocasião da Visitação de sua prima Isabel. Na narrativa, após Maria saudar Isabel, que está grávida com aquele que será conhecido como João Batista, a criança se mexe dentro do útero de Isabel. Quando esta louva Maria por sua fé, Maria entoa o Magnificat como resposta

 

De muito procurar

 

Marina Colasanti

 

Aquele homem caminhava sempre de cabeça baixa. Por tristeza, não. Por atenção. Era um homem à procura. À procura de tudo o que os outros deixassem cair inadvertidamente, uma moeda, uma conta de colar, um botão de madrepérola, uma chave, a fivela de um sapato, um brinco frouxo, um anel largo demais.

Recolhia, e ia pondo nos bolsos. Tão fundos e pesados, que pareciam ancorá-las à terra. Tão inchados, que davam contornos de gordo à sua magra silhueta.

Silencioso e discreto, sem nunca encarar quem quer que fosse, os olhos sempre voltados para o chão, o homem passava pelas ruas desapercebido, como se invisível. Cruzasse duas ou três vezes diante da padaria, não se lembraria o padeiro de tê-lo visto, nem lhe endereçaria a palavra. Sequer ladravam os cães, quando se aproximava das casas.

Mas aquele homem que não era visto, via longe. Entre as pedras do calçamento, as rodas das carroças, os cascos dos cavalos e os pés das pessoas que passavam indiferentes, ele era capaz de catar dois elos de uma correntinha partida, sorrindo secreto como se tivesse colhido uma fruta.

À noite, no cômodo que era toda sua moradia, revirava os bolsos sobre a mesa e, debruçado sobre seu tesouro espalhado, colhia com a ponta dos dedos uma ou outra mínima coisa, para que à luz da vela ganhasse brilho e vida. Com isso, fazia-se companhia. E a cabeça só se punha para trás quando, afinal, a deitava no travesseiro.

Estava justamente deitando-se, na noite em que bateram à porta. Acendeu a vela. Era um moço.

Teria por acaso encontrado a sua chave? Perguntou. Morava sozinho, não podia voltar para casa sem ela.

Eu… esquivou-se o homem. O senhor, sim, insistiu o moço acrescentando que ele próprio já havia vasculhado as ruas inutilmente.

Mas quem disse… resmungou o homem, segurando a porta com o pé para impedir a entrada do outro.

Foi a velha da esquina que se faz de cega, insistiu o jovem sem empurrar, diz que o senhor enxerga por dois.

O homem abriu a porta.

Entraram. Chaves havia muitas sobre a mesa. Mas não era nenhuma daquelas. O homem então meteu as mãos nos bolsos, remexeu, tirou uma pedrinha vermelha, um prego, três chaves. Eram parecidas, o moço levou as três, devolveria as duas que não fossem suas.

Passados dias bateram à porta. O homem abriu, pensando fosse o moço. Era uma senhora.

Um moço me disse… começou ela. Havia perdido o botão de prata da gola e o moço lhe havia garantido que o homem saberia encontrá-lo. Devolveu as duas chaves do outro. Saiu levando seu botão na palma da mão.

Bateram à porta várias vezes nos dias que se seguiram. Pouco a pouco espalhava-se a fama do homem. Pouco a pouco esvaziava-se a mesa dos seus haveres.

Soprava um vento quente, giravam folhas no ar, naquele fim de tarde, nem bem outono, em que a mulher veio. Não bateu à porta, encontrou-a aberta. Na soleira, o homem rastreava as juntas dos paralelepípedos. Seu olhar esbarrou na ponta delicada do sapato, na barra da saia. E manteve-se baixo.

Perdi o juízo, murmurou ela com voz abafada, por favor, me ajude.

Assim, pela primeira vez, o homem passou a procurar alguma coisa que não sabia como fosse. E para reconhecê-la, caso desse com ela, levava consigo a mulher.

Saíam com a primeira luz. Ele trancado a porta, ela já a esperá-lo na rua. E sem levantar a cabeça – não fosse passar inadvertidamente pelo juízo perdido – o homem começava a percorrer rua após rua.

Mas a mulher não estava afeita a abaixar a cabeça. E andando, o homem percebia de repente que os passos dela já não batiam ao seu lado, que seu som se afastava em outra direção Então parava, e sem erguer o olhar, deixava-se guiar pelo taque-taque dos saltos, até encontrar à sua frente a ponta delicada dos sapatos e recomeçar, junto deles, a busca.

Taque-taque hoje, taque-taque amanhã, aquela estranha dupla come- çou a percorrer caminhos que o homem nunca havia trilhado. Quem procura objetos perdidos vai pelas ruas mais movimentadas, onde as pessoas se esbarram, onde a pressa leva à distração, ruas onde vozes, rinchar de rodas, bater de pés, relinchos e chamados se fundem e ondeiam. Mas a mulher que andava com a cabeça para o alto ia onde pudesse ver árvores e pássaros e largos pedaços de céu, onde houvesse panos estendidos no varal. Aos poucos, mudavam os sons, chegavam ao homem latidos, cacarejar de galinhas.

O olhar que tudo sabia achar não parecia mais tão atento. O que procurar afinal entre fios de grama senão formigas e besouros? Os bolsos pendiam vazios. O homem distraía-se. Um caracol, uma poça d’água prendiam sua atenção, e o vento lhe fazia cócegas. Metia o pé na pegada achada na lama, como se brincasse.

Taque-taque, conduziam-no os pés pequenos dia após dia. Taque-taque, crescia aquele som no coração do homem.

Achei! Exclamou afinal. E a mulher sobressaltou-se. Achei! Repetiu ele triunfante. Mas não era o que haviam combinado procurar. Na grama, colhida agora entre dois dedos, o homem havia encontrado a primeira violeta da primavera. E quando levantou a cabeça e endireitou o corpo para oferecê-la a ela, o homem soube que ele também acabava de perder o juízo.

 

 

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